sábado, 24 de julho de 2010

Vista geral do Vale da Carreira (em diversos anos e ângulos)

Aqui publico fotos tiradas ao redor da aldeia, mostrando-a de diversos ângulos e em diferentes anos. Com agradecimentos a quem contribuiu (e que bem deve reconhecer algumas delas), nomeadamente: Ilda, Raul, Jorge, Tiago Cassapo, Irene Degiacometi, João Patrício...)

Em 1976:
Lá no alto, a eira. Vêem-se montes de palha e palheiros!

Quem veio buscar água à fonte? No Largo, estava o meu primeiro carro (Austin mini).
Era este abaixo:


Quem serão estas pessoas/jovens? O que andavam a jogar?
E de quem eram as cabras?


Vista sul: em primeiro plano, o "Fundo do Povo" e parte da "Tapada".

Em 1995:

Fotos de Maria Irene Degiacometi (Brasil)
Em 2004:



O belo e cuidado jardim, à beira da estrada.

Em 2009:




Em 2010:
Ao centro, na Tapada, o Ti Ramiro a lavrar...

Antigamente havia aqui azinheiras e sobreiros enormes! Agora, apenas algumas pequenas azinheiras...






Foto do Raul Sonso


Vista norte, tirada da Corga.

Em 2011:







Restos da eira...

Esta e as seguintes são da autoria do Tiago Cassapo Dias.









Panorama de sudoeste, de 24 agosto 2011 (actualmente é a foto de apresentação do blogue)


Em 2015:


Em 2017:
 
Depois do incêndio de 23/24jul - de João Patrício

Em 2019:
(foto de Nuno Alves)

(...)

São excelentes! Obrigado a todos.

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Quem quiser comparar com o Google Maps (ou G. Earth), em 2019:






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Última actualização: 03ago2019

segunda-feira, 28 de junho de 2010

As Desencamisadas (ou Desfolhadas)

     Chama-se “desencamisada” ("desfolhada", nalgumas terras) à tarefa que consiste em separar as espigas de milho (o grão propriamente dito, as também chamadas "maçarocas"), depois de secas, da sua parte exterior, que é folhosa. Esses “invólucros”, designados por “camisos”, “samarros” ou “folhos” ("folhelhos") eram (são) depois aproveitados para alimento de animais ou até para enchimento de almofadas, nas famílias mais pobres.

     As desencamisadas decorriam no verão, pelo que, muitas vezes, se aproveitava as horas de menor calor, durante a noite, depois do jantar, à luz de candeeiros ou simplesmente ao luar! Quando decorriam durante o dia, o serviço era feiro debaixo de alguma árvore ou outra sombra improvisada…

     O milho é o cereal que dá mais trabalho a cultivar. Semear, sachar, mondar, fazer leiras, regar, despontar, desfolhar, colher, transportar para a eira, desencamisar, debulhar, etc. são atividades próprias do seu cultivo! E quase todas são feitas manualmente, pelo que é justo realçar o árduo trabalho que se costuma ter com o cultivo do milho, durante a primavera/verão. Se acrescentarmos ainda todo o processo de moagem e o de feitura do pão, mais sobressai a canseira tida durante todo o ciclo deste cereal...

     A tarefa de desencamisar aparece, pois, já quase no fim desse ciclo. Mas quem não gosta(va) de se juntar ao grupo, nas desencamisadas? Mais uma vez, era altura de se manifestar o espírito de entreajuda (e de comunidade) das pessoas da nossa aldeia. Ao redor do monte de espigas, sentados em bancos ou no chão, dá-se aos braços, separando, uma a uma, as espigas dos camisos (folhos ou samarros). Os camisos são deitados para o chão e afastados gradualmente para trás, enquanto as espigas são colocadas em cestos e levadas para a eira (ou um local livre, plano), onde vão estar a secar, ao sol, por algum tempo.

     Era habitual contarem-se histórias, anedotas, etc., durante as breves horas que durava a desencamisada. Lembro-me que era habitual os rapazes (e também certas raparigas) desejarem ter a sorte de desencamisar uma ou mais espigas pretas (ou avermelhadas, também chamadas de "milho-rei"). Isso dava direito a um beijo aos/dos elementos do sexo oposto presentes!...

     Também era frequente a desencamisada acabar com a partilha de uma melancia (ou mais), algumas vezes colocada antecipadamente pelo dono, debaixo do monte de espigas, para servir de surpresa aos que deram o contributo...

     Toda a tarefa acabava por constituir também um agradável convívio, de sã camaradagem e de comunitarismo entre as pessoas da aldeia.

     Mais tarde, as espigas serão guardadas, debulhadas, etc., dependendo da utilização a dar ao respetivo grão. Era nesta altura que se costumava guardar algumas das melhores espigas (as maiores, de grão mais cheio), para servirem de semente para o ano seguinte.

     A debulha antiga era feita com moueiras (manguais), instrumentos feitos de dois pedaços de madeira (unidos por uma tira de couro), o mais curto e grosso dos quais era arremessado fortemente, de cima para baixo, sobre o cereal a malhar.  Às vezes, também se usavam os fueiros dos carros. Batiam-se, assim, as espigas, para separar o máximo de grãos dos "sabugos" ("maçarocas").

Uma moueira (mangual).

     Depois, à mão, separavam-se alguns grãos restantes. Se possível, a malha devia ser feita dentro de casa (ou numa chamada "casa de milho"), para não se perderem os grãos que saltavam.

     A última tarefa consistia em transportar os camisos para os palheiros, em carroças ou dentro de panos, para aí serem guardados, antes de virem as primeiras chuvas do outono...

     Posteriormente, no final da década de 60, apareceram as debulhadoras mecânicas, movidas por trator, fazendo o trabalho mais rapidamente e com menor esforço. (ver "À eira, colmo", de 27jan2010 e a Pág. 11 - Fotos antigas...)

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(Espero um dia acrescentar outras fotos, mesmo que sejam actuais...)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Locais de Interesse (ou "Maravilhas da Aldeia")

     Na nossa terra, há locais com interesse, seja para visitar ou recordar, não só pelos mais velhos, mas também pelos mais jovens, que talvez nem saibam onde se encontram alguns...

     Ora então vejam lá as "maravilhas da aldeia" que seleccionei, algumas já bem antigas. Conhecem-nas? Sempre que possam, visitem, apreciem e estimem-nas. Com estas dicas, não há desculpas!...

O Largo P.e José Alves Júnior (ou 'Largo da Fonte'):

     É o centro da aldeia, o único local onde, durante mais de 40 anos, se ia buscar água e onde os animais bebiam, com um bonito bebedouro. Embora a água possa já não ser própria para beber (por não ser controlada), serve para outros fins... Este é o local onde mais se junta(va)m as pessoas, para conversar ou conviver (dançar, jogar, etc.) e onde se fazem(iam) as fogueiras de Natal e S. João, bem como os magustos, etc... O seu actual nome serve de homenagem ao ilustre padre da nossa aldeia, já falecido (1928-1997).

Vista geral do Largo.


Busto do P.e José Alves.




O bebedouro, já sem água. Note os azulejos do fundo.

N. Sra. de Fátima:

     A imagem está colocada na parede da casa da família do Ti Germano/Ti Carma. Sempre muito bem arranjada e ornada de flores, é o local predileto para as rezas do terço e novenas da aldeia.

 
Santa Teresinha:

     É o outro local de culto da aldeia, visitado por transeuntes forasteiros, que param, rezam e doam muitas vezes a sua esmola... Como a anterior, está sempre bem cuidada. Era (É) costume a lanterna dependurada ser acesa de noite (usando-se azeite)...


  
A Fonte Velha:

     Onde se ia antigamente buscar a maior parte da água potável consumida, além de ser usada para lavar a roupa, no verão, quando escasseava a água no ribeiro e/ou ribeira. Antes da sua existência, a água para beber provinha quase sempre da Corga, de uma outra fonte da qual ainda me lembro, mas no local já não há vestígios. Depois de 1960, com a construção da mina e da nova fonte (no largo), foi gradualmente abandonada.



O Moinho de Água:

     Ao fundo da "Corga de Frade" (ou na "Varja Videira"), lá está ele, sozinho! Embora já não seja usado para moer, está pronto para visita. As paredes e o telhado foram conservados há poucos anos... A levada, que transporta a água desde o açude a norte, está já muito danificada. É preciso não deixar apodrecer a porta! Cuidado, ao entrarem nele: passeiam-se por lá uns pequenos répteis (osgas)...


A Ponte 'do tipo romano':

     A escassas dezenas de metros da Fonte Velha e do Moinho de Água, é o ponto de passagem para estes, sobre o ribeiro, que por vezes tende a transbordar na época de chuvas. Apesar de já ser bem velhinha, encontra-se em razoável estado de conservação, pois foi construída segundo as técnicas dos romanos - arco redondo em pedra...
             



A Mina:

    Foi construída cerca de 1960, resultando num bom melhoramento, na altura, fornecendo a água potável para consumo das pessoas e animais. A nascente era boa, pois a mina tem/tinha cerca de cem metros de comprimento, captando água dos lençóis por baixo do cabeço, em direção ao Vale Torno (ou Valtorno). Apenas me lembro de ter faltado a água uma única vez, na década de 70, e apenas por breves horas, ao final dum dia em que havia uma série de casas em obras e o consumo de água foi exagerado! Mas, na manhã seguinte, já corria de novo em quantidade suficiente... 

     Começou por abastecer uma única torneira (no Largo da Fonte, atualmente Largo P.e José Alves Júnior), mas depois foi adicionada outra torneira, junto à estrada (e 'forno de cima'), mantendo-se até cerca do ano 2005 (a confirmar), altura em que a água passou a vir da Barragem das Corgas (descendo ao longo da estrada, passando pelos Caniçais) e chegar a cada casa, com contador individual.



A Eira:

     Antigamente era aqui que lhe malhavam os cereais, e mais tarde debulhavam com auxilio de máquinas: trigo, centeio, cevada, e por vezes milho. Havia alguns palheiros dos quais só há vestígios, a sul. As medas e os montes de palha eram característicos da sua paisagem. Presentemente, apenas resta parte da parede lateral e o adro. - (Ver também o artigo "À eira, colmo!", de 27jan2010)


Agora, de vez em quando, a eira até serve de estacionamento!

Os Fornos do Pão:

     Nos fornos da aldeia, tradicionalmente faziam-se o pão, os bolos para as festas e, mais raramente, os assados (em tabuleiros ou simplesmente, sobre o 'lar' quente, batatas e cebolas...). Havia grande entendimento e união entre as famílias, pelo que, quase todos os dias, os únicos dois fornos existentes eram usados, de forma concertada, sem qualquer conflito.
    
     Os tempos mudaram e, hoje, quase todas as famílias têm o seu próprio forno... As fotos abaixo são exemplos disso. Descubram a que fornos pertencem!...

     (Espero brevemente explanar mais este assunto, em tema próprio, a não ser que algum de vós se antecipe... - pois continuo à espera de contributos sobre qualquer assunto relativo à nossa aldeia.)





O último forno e o respetivo pão são da Alice. Até faz crescer água na boca!

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(Última revisão/actualização, em 08jan2012) 

terça-feira, 27 de abril de 2010

As Flores de Esteva e as pútegas

     A esteva é um arbusto muito comum nos campos da nossa terra. Por isso, não há Valecarreirense que não a conheça, tanto mais que costuma(va) ser apanhada para aquecimento e ajuda na cozedura dos alimentos (lareiras),  fazer estrume dos currais ou adubar certas terras, fazer de vassoura para varrer os fornos, etc...

     Na primavera, acompanhando os dias que começam a aquecer, os matos enchem-se das mais variadas cores (além do verde, em geral, amarelo das carquejas e tojos, violeta do rosmaninho, etc.), mas com muitos "pontos" brancos, devido à grande quantidade de flores de esteva. Cada uma delas produz normalmente uma apreciável quantidade de flores, as quais vão abrindo aos poucos, em dias sucessivos. Cada flor permanece aberta por pouco tempo, depois murcha. Há casos em que duram apenas cerca de um dia, se o calor apertar! Noutros casos, fecham à noite e reabrem no dia seguinte...

     Em miúdos, costumávamos brincar com as "pitorras" ou "carrapitos" (que resultam da infrutescência da flor), pondo-as a girar velozmente com os dedos da mão, ao desafio!...

     Mas o que mais me fascina (e creio que também se passou com alguns dos nossos antepassados) é o facto de a flor apresentar em cada pétala uma mancha avermelhada, cor de sangue, por isso se costumava dizer que eram as “chagas de Cristo”. Há plantas em que as pétalas são todas brancas, sem “chagas”. Quando assim era, dizia-se que eram de Nossa Senhora, creio... Nalgumas terras, eram designadas "albinas". O mais vulgar é a flor ter cinco pétalas (portanto cinco “chagas”), mas também as há com maior número. Lembro-me de ter visto antigamente até 8 ou 9 “chagas”, pelo menos… Numa procura rápida recente apenas encontrei até 7. E parece-me que não há com menos de cinco (ou eventualmente 4?)...

     Aqui apresento exemplos de cada situação. Se alguém encontrar outros exemplares diferentes, agradeço que me envie fotos, sim?




Exemplos sem chagas:


     Como informação adicional, sobretudo para os mais novos: muitas vezes associadas às estevas, pois nascem junto às suas raízes, aparecem as pútegas, que começam por ser vermelhas e vão-se tornando amarelas e depois acastanhadas, à medida que amadurecem. Embora tenham casca muito azeda, produzem uma espécie de arroz-doce, muito apreciado por nós, miúdos de outros tempos...
    
     Parece que já vão sendo muito raras, devido ao abandono do cultivo dos campos! A seguir apresento um putegueiro, no estado inicial de crescimento e, depois, outro com as pútegas já maduras e as mesmas depois de arrancadas:

 
Pútegas no estado inicial de maturação. - (Agradeço a foto ao Jorge Alves)


Pútegas já maduras e depois de arrancadas...

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Última actualização: 01mai2017

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Jogos Tradicionais

     Tradicionalmente, no Vale da Carreira, principalmente durante as tardes dos domingos e dias-santos, os jovens preenchiam o tempo e divertiam-se de muitas maneiras: jogando, cantando, correndo, bailando, etc.

     Dos jogos, alguns eram feitos com rapazes e raparigas, dos quais saliento: o ringue, as prendas, o podão (apanhada), as escondidas, etc. Outros eram exclusivos dos rapazes: jogar à bola, ao moucho (bilharda), à porca-russa, ao fito, à malha, ao espeto, correr com a roda (com guiador de arame ou de pau), montar os carneiros, subir e descer nas árvores, ir aos ninhos, etc. Apenas as raparigas jogavam à semana, pedrinhas, etc.

     Os mais velhos, às vezes improvisavam bailes, ao som de realejo (gaita de beiços) ou música de rádio, gravador, etc., onde dançavam a pares. Outros cantares, danças e rodas eram muito genuínos e típicos da nossa aldeia (ver outra página do blogue).
     A brincadeira era divertidíssima e muito animada, fazendo frequentemente a inveja das aldeias vizinhas. Havia quem passasse, via as pessoas a ocupar assim o tempo e depois comentasse que a gente do Vale da Carreira quase não trabalhava! Ora, a verdade é que, nos dias de verão, o calor é tanto que se torna imperativo as pessoas resguardarem-se à sombra, indo trabalhar nos campos apenas “pela fresca” (ao início da manhã e ao fim da tarde). Por outro lado, devido à sua religiosidade, sempre se “respeitava os dias do Senhor”: aos domingos e dias-santos não havia quaisquer trabalhos nos campos. E mesmo o gado (rebanhos) era frequentemente alimentado apenas nos currais, nesses dias…

     Toda essa “azáfama” de diversão era muito salutar: desgastavam-se energias, praticava-se exercício físico e promovia-se o relacionamento interpessoal, de tal forma que não havia lugar a inimizades, todos se conheciam e conviviam quase como irmãos.

     Bons velhos tempos!

terça-feira, 30 de março de 2010

Aos Taralhões

     Como sabem, existe uma grande variedade de pássaros na nossa região. Alguns permanecem por cá todo o ano (os autóctones: pardais, melros, tentilhões, etc.), enquanto outros (migradores) aparecem em certas alturas do ano. Destes saliento: na primavera, as andorinhas e os cucos, e, no final do verão e princípio do outono (de agosto a outubro), os designados de “taralhões” (felosas, galegos, moscanhos, piscos, etc.) e, mais tarde ainda, de novembro em diante, os tordos.

Cuco.                                                        Tordo.

     Parte do tempo dos rapazes era passado a “dominar a natureza”, do seguinte modo: na primavera, à procura dos ninhos; no verão, fazia-se a caça aos pardais (desviando-os do milho e das medas nas eiras); no outono, a apanhar os “taralhões”; e, no inverno, tentava-se apanhar tordos, melros e alguns piscos restantes.
    
     A actividade que mais nos animava era a caça aos taralhões, que começava normalmente no princípio de setembro. Mas antes, era necessário ir à procura das “agúdias” (formigas de asas), que eram procuradas nos formigueiros e tiradas até às primeiras chuvas do final do verão. Eram contadas em “moios” (1 moio = 60 unidades), guardadas em beterrabas (às quais se retirava parte do miolo, ficando o restante para seu alimento) ou em cabaças (variedade de abóbora). Nestas, era preciso alimentá-las com farelos ou “escardaços” (cardaço, bagaço de uvas). Na mesma altura, era fundamental preparar as armadilhas (costelas): ver se armavam e desarmavam bem, colocar os suportes para fixar as agúdias, amarrar-lhes um cordel para as atar, se necessário, etc.

     A época começava com as felosas, que eram normalmente bem gordinhas e se alimentavam principalmente de figos e amoras. Depois surgiam os galegos, os ferreiros, as rabetas, os rouxinois, os moscanhos e, mais tarde, os piscos, magrinhos e esfomeados, que apareciam em grande quantidade.
  
     Os tordos apareciam no início do inverno. Havia outros que mais dificilmente eram apanhados, principalmente os autóctones (pardal, melro, tentilhão, mejengra, etc.). Ocasionalmente, apanhavam-se ainda alvéolas, carriças, cotovias, pardinhas, gaios, mochos, etc.
                            
 
Felosa.                                                   Galego.

Pisco.

     Ainda bem antes do nascer do sol, pegava-se nas agúdias e nas costelas (juntas num "arameiro") e começava-se a caçada. As costelas eram armadas pelos campos, adotando algumas técnicas de orientação e disfarce da armadilha (em cima ou por baixo de figueiras, silvas, trovisqueiros, outras árvores de fruta, etc.) com as agúdias presas, bem visíveis e vivas, a atrair a passarada…

     Depois, havia várias visitas a cada armadilha, para retirar o que tivesse ficado preso nas mesmas e voltar a armar. Os taralhões apanhados eram colocados e transportados, presos pelos bicos, nesse "arameiro" ou noutro.

Após uma caçada, exibindo os taralhões.
(Composição feita a partir de fotos tiradas em 1992/1993... Actualização feita em 14abr2011)

     Isto decorria por toda a manhã, proporcionando um gozo indescritível, sobretudo quando a caçada era boa ou quando se presenciava algum dos pássaros, no preciso momento em que era apanhado na costela. Às vezes chegava-se ao ponto de os fazer atrair às costelas, cantando como eles ou enxotando-os para perto delas...

     Havia ainda outras formas de apanhar os pássaros: com fios ou linhas enterrados, tendo na ponta um grão de milho (para os pardais); com aboízes (para tordos, melros, gaios – usando um laço ligado a uma vara em tensão, que puxava o laço quando picado o isco – até se apanhavam perdizes!); com fisgas (pau em forma de forquilha com elástico para atirar pedras); com arma de pressão de ar e chumbo; com lanterna (de noite, por baixo das árvores). O visco (produto pegajoso, onde os pássaros ficam presos pelas patas) e a rede não eram usados na nossa zona…

     Depois dum dia de caçada, o que menos agradava era a tarefa de tirar as penas aos pássaros e limpá-los das tripas, o que podia levar horas a fazer, dependendo da quantidade apanhada. Mas, depois, quão saborosos eram: fritos, assados, cozidos com arroz ou molho de tomate, etc.! - (receitas típicas...)

     Creio que actualmente já ninguém se arrisca a passar um dia aos taralhões, como antigamente, pois mudam-se os tempos!...

     E alguns pássaros acabaram por desaparecer completamente, devido ao facto de se ter deixado de fazer cearas nos campos e de as hortas terem diminuído significativamente… Estou a lembrar-me, por exemplo, dos cuelvos, picanços, pardinhas, papa-figos…

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Agora, a brincar:

     Qualquer dia ainda nos arriscamos a ver/ouvir um miúdo a dizer o seguinte:


domingo, 28 de março de 2010

Os Moinhos de Vento e de Água. A Azenha

     Os nossos antepassados sempre se esforçaram para tirar aproveitamento das forças da natureza (energias renováveis). É o caso da moagem dos cereais (para a feitura de farinha, usada no fabrico do pão e alguns enchidos – farinheiras, cadarrapos – e farelo, para consumo de animais). Desde tempos remotos, foram feitos engenhos que se moviam aproveitando a força do vento e da água: moinhos de vento, de água e azenhas.
    
     Quem se lembra ainda dos moinhos de vento, em volta do Vale da Carreira? Eu lembro-me bem do que existiu no alto do “Vale Torno”, explorado pelos dois irmãos: Ti António Lavrador e Ti Zé Sapateiro.


Ruínas do moinho de vento do Vale Torno.

     Fui lá muitas vezes moer, mandado pelos meus pais, carregando às costas apenas uns quilitos de cereal, pois era novo e tinha de subir, pelo caminho íngreme, a encosta junto à atual mina…

     No alto da “Conecril” (ou “Corga do Alecrim”) houve outro, onde trabalhou como moleiro o Ti Joaquim Alves (mais conhecido por "Carpinteiro", visto que, após a extinção do moinho, possuiu uma forja/carpintaria, no cimo da aldeia, na casa que, mais tarde também chegou a ser café/mercearia). Desse moinho a trabalhar tenho apenas uma vaga recordação... Resta-lhe no local apenas um amontoado de pedras, como se vê nesta foto de 2011:

Ruínas do Moinho do Alto da Conecril - ou do Rato.

     Quanto aos que eram movidos a água, além do que ainda existe a este da aldeia (próximo da ponte de traça romana e da “Fonte Velha”), havia outros na ribeira de Mesão Frio. Em ambos, era seguido o princípio de que, conforme o seu “quinhão”, havia dia e hora certos para moer (ou ceder a outrem, caso não fosse necessário, numa determinada altura).


 
O Moinho de água do Vale da Carreira e grande plano do seu rodízio.

     Ainda me lembro da Azenha que havia na ribeira de Mesão Frio, bastante mais a norte do moinho (próximo do fundo do “Vale da Figueira”). Mas atualmente apenas restam ruínas, onde nos divertíamos, empoleirados na roda, a girar… O princípio de funcionamento desta era o mesmo dos moinhos de água, mas o rodízio dava lugar a uma grande roda com pás, sobre as quais caía a água. (Se conseguir alguma foto das ruínas, aqui a apresentarei... Obrigado ao António do Ti Armando, do Mesão Frio, pelas dicas que me deu...)
    
     Todos zelavam, cada um na sua vez, para que a água corresse em abundância, desde o açude ao moinho/azenha, não se desperdiçando nesse trajecto nem junto à calha (tinha uma grande inclinação, para aumentar a força da água corrente) que a fazia cair sobre o rodízio/roda. Tapavam-se os buracos que apareciam na levada com restos de pano ou com pedaços de terra com erva (as chamadas “leivas”).

     As mós (uma fixa e a outra giratória), esmagavam os cereais. Por cima das mós, ficava a “moega”, reservatório em forma de pirâmide invertida, onde se despejava o cereal. No fundo havia uma ranhura por onde o cereal saía para o buraco da mó giratória. Um mecanismo permitia iniciar, parar e regular a quantidade de cereal a entrar para a moagem.



Mó e moega.
      
     Antes da água chegar ao ro velocidade de rotação do rodízio (e, portanto, também da mó giratória) era controlada, quer diminuindo ou aumentando a quantidade de água que descia pela calha, em direcção ao rodízio, quer fazendo subir ou baixar essa mó e, desse modo, passava a ter menos ou mais atrito sobre a mó fixa. Assim, e sincronizando ainda com a maior ou menor quantidade do cereal que se deixava escorrer da moega, a farinha ficava mais grossa ou mais fina, respectivamente. Também era necessário, pelo menos uma vez por ano, picar as mós (com um martelo pontiagudo), para que a moagem fosse eficiente...

     A mistura de farinha/farelo moída saía pela parte da frente das mós e caía para uma zona resguardada por um pano, para evitar que se espalhasse ou perdesse, nomeadamente no caso de haver vento. Aí era apanhada à pá e se enchiam as sacas.

     Lembro-me muito bem de que, quase sempre, num canto do moinho havia espaço reservado a fazer fogueira, para aquecimento e/ou iluminação, enquanto se esperava, por vezes horas, para que o cereal moesse completamente ou o suficiente para se apanhar a farinha. Fui muitas vezes, até de noite (à luz da lanterna de petróleo), com o meu pai ou a minha mãe, e eles faziam fogueira, nesse canto, para nos aquecermos, enquanto esperávamos pela finalização da moagem...

     Dados os locais onde eram construídos, por vezes era difícil o acesso aos mesmos, pelo que se tinha de carregar às costas os sacos com os cereais e a farinha, de dia ou de noite, com água e/ou vento abundante. Mas quão saborosos eram os produtos feitos com essa farinha, o que contribuía para compensar os esforços e canseiras tidos!...

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Actualização de 27fev2013

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Matança do Porco

     Criar e matar um ou mais porcos por ano era uma tradição frequente na nossa aldeia, pois o consumo de carne de porco era muito grande. Os outros tipos de carne (vaca e aves) quase não tinham expressão. E, apesar de criados, mesmo o cabrito, galinha, cabra ou borrego/ovelha eram muito raramente mortos para consumo (apenas em dias especiais, nomeadamente festas ou casamentos).

     Com muitos meses de antecedência (até quase um ano), compravam-se os porcos recém-nascidos (leitões). Estes eram depois alimentados com os restos da comida das famílias, verduras, farinhas e farelos, figos, bagaço da azeitona, etc.

     No final do ano, quando o frio chegava e os porcos já estavam bem crescidos, havia lugar à sua matança (entre o princípio de Dezembro e o Carnaval, por norma). Os vizinhos juntavam-se e, num dia combinado, decorria a tradicional matança, sendo mortos quase sempre diversos animais pertencentes às várias famílias. Este ritual também ainda acontece hoje em dia, com as devidas diferenças, pois mudam-se os tempos…

     Englobo neste tema não só o dia em que era morto o porco mas também os seguintes, até à feitura total dos diversos enchidos, passando pelo salgar das carnes e cura dos presuntos e chispes.

     O dia da matança começava com a junção de homens e/ou rapazes (5 ou mais) e normalmente pelo menos uma mulher (a dona do animal), munida dum alguidar já com um punhado de sal.
    
     Às vezes, era já nesta altura que o dono do porco oferecia um cálice de aguardente, (para aquecer e dar genica). Outras vezes, era apenas depois do porco acabar de sangrar e ser deixado pronto para chamuscar que era oferecido vinho e/ou aguardente, acompanhados de pastéis ou pataniscas de bacalhau, passas de figo, etc.


Matança do porco, junto à casa dos meus pais (no Covão) - cerca de 1975.
    
     Um dos homens (o matador) empunhava a faca de matar (tipo punhal, com corte dos dois lados). Os outros tratavam de retirar o porco do curral (ou furda), agarrá-lo e colocá-lo, deitado, em cima duma banca (mesa robusta, de madeira grossa), com a cabeça ligeiramente mais baixa do que o resto do corpo, para poder sangrar melhor.

     Toda a aldeia era acordada com os guinchos ("gosiar"-?) do primeiro animal a ser morto. O matador segurava uma das patas dianteiras e espetava a faca entre ela e o pescoço, de modo a atingir uma das artérias ou veias principais do bicho, próximo do coração, fazendo-o sangrar até à exaustão.  O sangue era aparado no alguidar e continuamente mexido, com o sal, para não coagular ("colhar") de imediato. Iria mais tarde servir para as morcelas, a semineta e, às vezes, também para juntar ao cozido.

     Não era raro o animal espernear violentamente, causando às vezes cortes com os cascos (canelos) das patas ou os dentes, pelo que tinha de ser bem seguro pelas patas, orelhas, rabo, etc.

     Depois de morto (“esticar o pernil”), passava-se à fase de chamuscar e lavar. Com a ajuda de carqueja ou palha a arder, era queimado o pêlo e arrancados os canelos e a ponta do focinho. (Modernamente, usa-se o maçarico a gás.) De seguida, era bem raspado, esfregado e lavado, com ajuda de facas afiadas, carqueja verde, colher de pedreiro ou um pedaço de telha. (Às vezes, alguns dos pelos maiores - "cerdas" - eram aproveitados pelos sapateiros, para a ponta das linhas/fios de coser o calçado!) Por fim, era-lhe retirado o máximo de fezes, com a ajuda de água corrente, e separada e atada a tripa do ânus.

     De seguida, era colocado um chambaril nos tendões das patas traseiras. Depois de levado em braços para dentro de casa, era suspenso numa corda atada a um barrote do tecto ou num gancho forte. Já de cabeça para baixo, era então aberto pela barriga e retiradas as tripas e separadas as restantes vísceras. Ficava depois algumas horas a escorrer os restos de sangue ou água para um recipiente e arrefecia completamente.

     As mulheres e/ou raparigas dirigiam-se a um curso de água (barroca, ribeiro, ribeira - na falta de água corrente nestes, servia uma mangueira com água vinda de um poço ou da fonte pública), para lavarem as tripas. Bem lavadas e esfregadas com sal e casca e/ou sumo de laranja, seriam depois aproveitadas para fazer os diversos enchidos. (Só mais tarde, apareceram à venda as tripas de vaca...)

     Enquanto as mulheres estavam assim ocupadas, era frequente os homens aproveitarem o tempo para, de adega em adega, provarem o vinho novo. Para alguns, era dia de bebedeira certa!

     Para o almoço do dia da matança era muitas vezes logo feita a "semeneta/semineta" (pedaços pequenos de fígado, sangue, pulmões/bofes, coração, rim, feitos com cebola, alho, azeite e vinho), bem como os "entretinhos" fritos (banha rendada da barriga, à volta dos intestinos - noutras terras conhecida por redanho ou chichorro), que eram comidos ainda quentes.

     No final do dia, eram feitos os primeiros enchidos, as morcelas, para aproveitar o resto do sangue do porco, entretanto já coagulado e depois partido em pedaços muito pequenos. Com agilidade, as tripas eram enchidas, com a ajuda de uma enchedeira, cosidas com fio grosso e cortadas à maneira! Depois, eram fervidas em água e colocadas a secar/defumar nas varas do fumeiro. Nos dias seguintes, devia ser mantido aceso algum lume por baixo do fumeiro, o maior tempo possível.

     Era habitual o jantar do dia da matança constar de carne nova cozida (suã, pulmões, goulã e, às vezes, também um pouco de sangue), acompanhada das boas couves da horta. Havia quem fizesse então a semineta, em vez de ser ao almoço, mas dizia-se não ser aconselhável, “por ser reinadia”. (Nem se devia comer muita quantidade, pela mesma razão. E, de preferência, devia ser acompanhada de “boa pinga”!)

     No início dessa mesma noite (ou eventualmente no dia seguinte), o porco era descido do chambaril e desmanchado completamente, separando as carnes a salgar (toucinho, presuntos, chispes, cabeça, pés/patas) da carne para consumo quase imediato ou que iria ser usada nos restantes enchidos. Assim, a carne magra servia essencialmente para fazer as chouriças magras e os paios, a mais ensanguentada era aproveitada para as mouras, bucho, bexiga. Era frequente usar-se juncos verdes (cortados nos dias anteriores, da beira das ribeiras ou locais húmidos), para revestir o chão onde se executavam estas tarefas.

     Estes enchidos eram feitos apenas uns dias depois, dado que as carnes ficavam migadas em alguidares ou bacias, onde eram temperadas com sal e outros condimentos necessários (colorau, cominhos, alho, vinho, etc.) e ficavam a ganhar o verdadeiro sabor. Ah, como todos gostavam de provar essas carnes, grelhadas no espeto, antes da sua feitura!...

     Das tripas do intestino grosso faziam-se os paios (o "nascediço" e outros mais pequenos), bem como os chouriços "rosqueiros", que ficavam com um sabor picante, característico!

     As farinheiras eram as últimas a ser feitas, especialmente à base de carne gorda/toucinho, a qual era misturada com farinha. Eram feitas em maior quantidade que os outros enchidos e duravam para (quase) todo o ano.

     Por vezes, havia ainda quem aproveitasse restos da massa da feitura das farinheiras, lhe juntasse um pouco mais de carne e fizesse “cadarrapos” (uma espécie de filhó ou pastel,) que eram fritos às colheradas e comidos ainda quentes. Oh, que saudades, por serem tão saborosos!...

     Como não havia arcas frigoríficas, a maior parte da carne era salgada e guardada na salgadeira. Outra (febras, costela) era feita e depois guardada, em toucinho derretido (banha), durante algumas semanas até ser totalmente consumida. Os enchidos, depois de retirados do fumeiro, eram conservados em azeite...

     Os presuntos e chispes só eram retirados do sal após 2 a 3 meses, sendo então revestidos com uma calda à base de pimentão/colorau e dependurados no fumeiro a defumar/curar por mais uns tempos.

     Não era raro, principalmente nas famílias maiores, ir trocar presuntos por toucinho. Lembro-me do meu pai ir até aos Envendos ("Presuntos da Mata") fazer essa troca e trazer diversas bandas de toucinho, que era depois consumido ao longo do ano, se possível fazendo-o durar pelo menos até à próxima matança. O mesmo cuidado havia com o consumo dos enchidos…

     Como já se disse, esta tradição ainda se mantém em algumas famílias, com as necessárias adaptações. Por exemplo, as salgadeiras e a conserva em banha já não são necessárias, com o aparecimento das arcas frigoríficas e dos congeladores. A intervenção do veterinário e/ou o abate no matadouro são outras mudanças...