sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Fazendo aguardente no alambique comunitário
Tão normal como fazer o vinho com as uvas criadas nas nossas terras, era o fabrico de aguardente no alambique comunitário da aldeia. Apesar de ser proibido no tempo do regime político que vigorou até 1974, tal não desmotivava os nossos pais e avós... Nesses tempos, houve apenas algum cuidado em o fazer de forma mais discreta. Creio que o alambique costumava estar guardado numa das casas do meio da aldeia e aí se fazia a aguardente. Mas, depois do 25 de abril, passou a ir de casa em casa, à medida que os moradores combinavam os dias para o seu uso. (Presentemente, parece que já não é usado – que pena!...)
Depois de feita a vindima, as uvas eram pisadas e feito o mosto, com recurso quase exclusivamente ao peso corporal dos homens (ou mulheres), descalços ou com botas de borracha. A maior parte desse mosto servia para encher a(s) pipa(s), para vinho. Mas os restos (as peles, os escardaços/cardaços, as pevides) continuavam no local (lagar, tanque ou recipiente, etc.) onde tinham sido pisadas as uvas e aí eram conservados, a fermentar, durante mais cerca de 9 dias. Várias vezes ao dia, a mistura era mexida e se evitava que se lhe juntassem mosquitos, tapando-a com panos ou redes...
O alambique era de cobre, normalmente fabricado pelos latoeiros que havia na zona. A parte de cima, a cabeça, era afixada com a ajuda de uma massa de farinha (de centeio) com água, para vedar o vapor. Igual massa servia para vedar a água, em volta do tubo condensador, de que se fala a seguir.
Alambique
Depois de colocada uma certa quantidade da mistura fermentada no interior do alambique (até um pouco abaixo do fundo do gargalo), este era colocado em suportes próprios, em cima do lume, para a mistura ferver e libertar vapor. Este era obrigado a sair pelo cano/tubo comprido (condensador/serpentina), que descia do cimo da cabeça, passava por dentro de um recipiente com água fria e escorria, já condensado e em pequena quantidade, pelo final do tubo.
O lume que ardia e dava calor devia ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. As "torgas" (raízes de uma certa moita do campo) eram a melhor lenha para isso, pois ardiam uniformemente, durante longo período de tempo.
A aguardente saía quente, sendo depois guardada em garrafas e/ou garrafões, que seriam conservados bem fechados, depois de ter arrefecido. Costumava usar-se um cálice muito pequeno para provar a aguardente: se era saborosa, se não cheirava a fumo, se era forte ou fraca... Ao lançar-se um pouco dela às brasas, se ardesse rapidamente, fazendo chama, era sinal de estar forte, ainda ser boa...
Era muito frequente os mais velhos pregarem "partidas" aos rapazes adolescentes, desafiando-os a beberem, de uma só vez (de um trago), um cálice dessa aguardente e imediatamente depois gritarem: "Ó Elvas, ó Elvas". Evidentemente que a voz fica presa! E era engraçado ver essa malta a fugir que nem uns tontos à procura de água!... Bem me lembro de também eu ter caído numa dessas "partidas"!
A primeira aguardente retirada de cada alambicada, era por vezes aproveitada para ser usada como álcool, para as mezinhas caseiras e curativos... A restante ia sendo cada vez mais fraca, à medida que decorria a fervura da mistura. Era normal, pois, misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.
Uma vez fiquei sozinho a fazer aguardente, enquanto os meus pais foram acabar de plantar umas couves na "Conecril". Quando eles regressaram, embora o alambique continuasse a produzir bem e eu tivesse apenas retirado 2 a 3 litros, achava que seria já o suficiente para aquela alambicada, "pois a aguardente já saía fraca, parecia-me água". No entanto, o meu pai, mais sabedor do assunto, tratou logo de verificar: provou a aguardente, lançou um pouco dela às brasas e respondeu-me: "Não está nada fraca, tem de dar ainda mais 1 a 2 litros. Ora, tu é que já bebeste muita!..."
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Olhando para o céu (principalmente de noite), Eclipses, etc.
Na nossa aldeia, durante as noites sem nuvens, principalmente no verão, na altura das desencamisadas, ou quando se permanecia bastante tempo fora de casa ao fresco, ou ainda quando se ia caminhando, um dos temas de conversa muito abordado pelos nossos antepassados era relativo ao céu (firmamento), com as suas diversas fontes de luz: estrelas, planetas, constelações, etc.
A fraca luminosidade no meio rural (ainda mais pronunciada antigamente, sem energia eléctrica) ajuda a ver o céu (firmamento), melhor se distinguindo nele os diversos objectos luminosos.
A Via Láctea ou "Estrada de Santiago".
Bem conhecida dos antigos era a "Estrada de Santiago": parece um rasto de inúmeros pontos pequenos, ao qual pertence a Terra e o Sistema Solar: é a nossa galáxia, ou "Via Láctea". Os antigos normalmente não sabiam isso, mas os estudantes que começavam a aprender Astronomia (na disciplina de Geografia, creio), esclareciam-nos, dando mais umas dicas... Aproveitavam também para explicar a diferença entre os diversos pontos luminosos do céu: as estrelas (com luz cintilante), que são em muito maior quantidade que os planetas (de luz fixa).
Falava-se também de "estrelas cadentes" (meteoritos ou meteoroides, que ao entrarem na atmosfera terrestre, se fragmentam e ardem, mas em alguns casos chegam a atingir a Terra, com alguma violência - veja-se o caso recente na Rússia, com mais de mil feridos, (próximo de Chelyabinsk), bem como outro na Sibéria, em 1908 (Tunguska). E também de cometas (astros raros, compostos de núcleo, cabeleira e cauda - esta sempre na direção oposta ao Sol), assim como dos eclipses e como se formavam. Quando se via algum ponto luminoso a passar depressa, falava-se da possibilidade de ser um avião ou um satélite, já que os últimos começaram a ser lançados, a partir do fim da década de 50 e início da de 60...
Estrela cadente.
Existem ainda os asteroides, que são corpos rochosos e metálicos que possuem órbita definida ao redor do Sol. São semelhantes aos meteoros, porém em dimensões bem maiores, possuindo forma e tamanhos indefinidos, mas têm geralmente a dimensão de algumas centenas de quilómetros. (Já que neste ano se podem observar vários cometas e asteroides, veja o artigo de 07jan2013)
Asteroide.
Quanto aos agrupamentos de estrelas, as chamadas constelações (atualmente são consideradas 88 pela União Astronómica Internacional), muito faladas eram a Ursa Maior (também chamada de carro, arado, caçarola) e a Ursa Menor. Explicava-se como, a partir da Ursa Maior se achava o Norte, descobrindo a Estrela Polar, a última da cauda da Ursa Menor.
Outras constelações que todos aprendíamos a localizar no céu eram: o Orion (quadrilátero com mais 3 estrelas, muito próximas e alinhadas no seu centro - as "Três Marias") e a Cassiopeia (tem a forma dum W).
Eis um outro conjunto de estrelas, o "Sete-Estrelo" (também conhecido por "Sete Irmãs"), muito próximas umas das outras (hoje em dia, sabe-se que são muito mais de sete), o que confere ao conjunto um brilho grande, azulado, diferente do geral. São universalmente mais conhecidas por "Plêiades" "ou Aglomerado Estelar M45" - ver http://www.guia.heu.nom.br/pleiade.htm - e pertencem à constelação de "Touro".
O Aglomerado M45 ou "Sete-Estrelo".
O "Sete-Estrelo" ampliado por telescópio.
Os planetas mais próximos de nós (Marte, Vénus, Mercúrio, Júpiter) são muitas vezes visíveis, embora não seja fácil identificá-los. Próximo do anoitecer e do amanhecer vê-se perfeitamente um dos planetas mais próximos de nós: Vénus, chamado de "estrela da manhã", "estrela da tarde" ou "estrela do pastor".
O planeta Vénus (e à direita, o planeta Mercúrio).
Quanto ao satélite natural da Terra, a Lua, também havia muitas conversas em seu redor: além dos eclipses, falava-se na lenda das suas manchas: "Uma vez, andava um homem a trabalhar ao domingo apanhando silvas. Deus apareceu-lhe e perguntou porque trabalhava aos domingos. Respondeu ele que o fazia porque ninguém o via naquele canto isolado. Retorquiu o Senhor que, a partir daí, toda a gente o iria ver. E Deus colocou na Lua o homem com o molho de silvas às costas". A isso se deviam as suas manchas... Na verdade, elas são mares ou planícies de solo escuro, formados outrora pela lava que brotou dos vulcões lunares...
A Lua e suas "manchas".
As crateras da Lua, vistas com telescópio.
Uma grande cratera na Lua.
Eclipse parcial da Lua.
No que diz respeito aos eclipses, os mais vistosos e atraentes são os totais do Sol! É que a Lua encobre completamente e de forma quase perfeita o Sol, deixando em seu redor uma auréola brilhante. Outros também espectaculares são os híbridos do Sol: numa parte da Terra são vistos como totais e noutras como anelares (ou anulares). Mas tanto uns como outros, são apenas presenciados em estreitas faixas ao longo da Terra, pelo que são muito raros... Seguem fotos de alguns:
Eclipse total do Sol.
Eclipse anular.
Eis agora uma imagem da Lua, com o planeta Júpiter próximo (foto tirada em 02jan2012, dia a seguir a Quarto Crescente):
A “Super Lua Cheia" de 2013:
A fase de Lua Cheia acontece próxima do perigeu só uma vez por ano e em 2013, acontece no dia 23 de Junho. (..) Por isso, a Lua estará mais exuberante por atingir a distância mínima da Terra em fase de Lua Cheia. O disco lunar terá um tamanho aparente 14% maior e será 30% mais brilhante do que a Lua no apogeu.
(Transcrito do site do Observatório Astronómico de Lisboa: http://oal.ul.pt/super-lua-23-jun-2013/)
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OBS.:
1. Para quem quiser explorar um pouco mais e ver a posição das estrelas, constelações, etc., ao longo do ano, e dado que o "AstroViewer Online" deixou de funcionar, tente usar uma aplicação como as recomendadas em:
http://www.sp-astronomia.pt/node/6421. Para quem quiser explorar um pouco mais e ver a posição das estrelas, constelações, etc., ao longo do ano, e dado que o "AstroViewer Online" deixou de funcionar, tente usar uma aplicação como as recomendadas em:
2. Eclipses - Em média, ocorrem 4 a 5 eclipses por ano, mas nem metade deles são visíveis em Portugal - (em 2018, houve 5 eclipses: 3 parciais do Sol e 2 totais da Lua). Em Portugal apenas foi visível o Total da Lua, de 27 de julho.
3. Alguns dos próximos eclipses totais/anulares do Sol (os mais espectaculares):
- 02jul2019 (América do Sul - Argentina/Chile)
- 14dez2020 (América do Sul - Argentina/Chile)
- 14out2023 (Américas)
- 12ago2026 (Europa - Pen. Ibérica, até à Gronelândia e Ártico)
- 06fev2027 (Costa Este do Brasil)
- 02ago2027 (desde o Índico até ao SW da Europa)
- 26jan2028 (da Pen. Ibérica até ao Norte da América do Sul)
- 02jul2019 (América do Sul - Argentina/Chile)
- 14dez2020 (América do Sul - Argentina/Chile)
- 14out2023 (Américas)
- 12ago2026 (Europa - Pen. Ibérica, até à Gronelândia e Ártico)
- 06fev2027 (Costa Este do Brasil)
- 02ago2027 (desde o Índico até ao SW da Europa)
- 26jan2028 (da Pen. Ibérica até ao Norte da América do Sul)
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Actualizado em 24mar2018
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sábado, 24 de julho de 2010
Flores e Plantas (em construção...)
Aqui vão ser apresentadas flores e plantas da flora da nossa zona... É para expandir. Quem quiser colaborar, é só enviar-me os contributos (textos, fotos, etc.). (Isto serve para todo o blogue...)
Tojo em flor:
Moita:
Esteva (flores com chagas, 5 ou mais pétalas):
Esteva (flores sem chagas - por vezes chamadas "de N.ª Sr.ª" ou "albinas"):
Rosmaninho:
Carqueja:
Trovisqueiro/trovisco:
Garfos (relógios ou cordeiros):
"Flores do meio-dia" (diz a Alice) - "Bons dias" (diz a Fátima):
Capela (marcela):
Papoilas:
Dedaleira (calças-de-cuco ou campainhas):
Cravo:
(E as seguintes, como se chamam?...)
Jarros:
Cravinas:
Malmequer (margarida):
Suga-mel (ou erva-das-sete-sangrias):
(E esta?)
Vinca (...):
E estas?
Zínias (obrigado a Adélia -?- pela sua colaboração):
E as seguintes?
Dente de Leão (?):
Girassol:
Videira (com uvas ainda verdes):
Silvas (com amoras maduras e verdes), misturadas com uvas:
Macieira (com maçãs):
Pessegueiro (com pêssegos ainda bem verdes):
Ameixas a amadurecer, vermelhas (acima) e amarelas (abaixo):
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Actualização de 02mar2019
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Belezas naturais,
Flores e plantas
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