terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Descubra portas, janelas e outros detalhes da aldeia (em atualização)

     Quem reconhece a porta da sua casa atual (ou daquela onde nasceu)? Com toda a certeza que já foi bem diferente da de hoje!... E os palheiros, janelas, etc.?!
     Eis uma variedade de fotos, retratando traços típicos da nossa aldeia. Agradeço as ideias e colaboração do meu primo Jorge Alves e do meu afilhado Tiago Cassapo Dias.

(NB: Com tempo, pretendo adicionar outros detalhes: janelas, portas de currais, palheiros, ferramentas, placas, marcos da estrada, pontão, etc...)



















(Eu vi um gatinho!...)









(Costela para pássaros grandes e perdizes. Para pássaros pequenos e ratos, são mais pequenas...
Podem ser fixas a uma base de madeira ou cordel.)


(tão docinho...)





(Temos do colocar a moer, um dia...)





Viv´o descanso!...



Estas 3 acima são de material já muito fatigado...







Aguarde mais...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os nomes dos locais da aldeia (toponímia)

Segue uma relação (para ir completando, gradualmente) com os nomes atribuídos pelos nossos antepassados aos diversos locais de cultivo: hortas, courelas, olivais, floresta, etc.:

- Açude
- Atalhinhos
- Atalhos
- Azenha
- Bacelo
- Barreirinhas
- Barroca da Corga
- Barroco Fundeiro
- Bouça Enxuta
- Bouça Velha
- Cabeçalta
- Cabeço Alto
- Cabulo
- Cão do Currel (ou Covão do Curral) *
- Cão da Ucha
- Castanheiros
- Cerro da Portelinha
- Cimo da Corga
- Cimo da Corguinha Madeiros
- Cimo do Vale
- Cimo do Valtorno
- Có Ferreiro (ou Corga do Ferreiro) *
- Có Friura
- Có Palerto
- Có Raposas
- Có Salgueiro
- Conecril (ou Corga do Alecrim)
- Corga
- Corga da Fonte
- Corga de Frade
- Corguinha Madeiros
- Corguinha (ou Correguinha) Videira
- Cortimpires (ou Corga Tio Pires)
- Costa do Cão
- Costa Galega
- Covão
- Eira
- Fonte Velha
- Fundo do Lameiro
- Fundo do Povo
- Horta do Meio
- Horta Nova
- Hortas
- Hortelha
- Lameiras
- Lameiro
- Lenteiro (ou Linteiro)
- Moinho (ou Munho)
- Nateiro
- Pernadinhas
- Piçarras (ou Picerras)
- Portela
- Ribeira (de Mesão Frio)
- Tapada(s)
- Tapada Cimeira
- Tapada de Trás
- Tapada Fundeira
- Valdanta (ou Vale d´Anta) *
- Vale da Estrada
- Vale da Figueira
- Vale das Ovelhas
- Vale de Sete
- Vale (do) Russinho
- Vale Indreu
- Vale Travesso
- Valitos
- Valtorno (ou Vale Torno)
- Varja Grande
- Varja Videira
- Varjas

* Nota: Os termos "cão", "có" e "val" são abreviaturas de "covão", "corga" e "vale", respetivamente... "Varja" é o mesmo que "Várzea".

(Obrigado ao Fernando Alves, que me lembrou alguns. Quem conhecer outros locais, que mos indique, por favor...)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A fogueira de Natal e a ida aos madeiros

     Nos dias que antecediam a noite de Natal, os rapazes da aldeia reuniam-se e, pela calada da noite, começavam a juntar os madeiros para a fogueira que iria ser acesa na noite de Natal. (Lembro-me dum ano em que também as raparigas se juntaram aos rapazes, quando fomos na camioneta do falecido primo Domingos Mendes carregar troncos de oliveira, entre o nó do IC8 e a "Fonte de Meio Alqueire" - quem sabe onde é?)...

Madeiros preparados para a fogueira (em Proença, 2010 - foto do Raul Sonso)     

     Normalmente, já se tinha "deitado o olho" às azinheiras e/ou oliveiras que seriam "sacrificadas", quer estivessem ou não abandonadas. Tanto podiam estar ainda em crescimento como já cortadas, ou apenas ser um bocado (cepo, tronco, etc.)...

     As árvores eram quase sempre pertencentes a alguém de fora da aldeia. Portanto, era conveniente que ninguém se apercebesse da apropriação das mesmas! Como tal, havia um secretismo máximo tanto na seleção das árvores como no seu abate, transporte e guarda até ao dia em que iriam ser queimadas.

     A lenha era transportada numa carroça (se necessário, duas), que os rapazes puxavam e/ou empurravam. Lembro-me de algumas vezes ter de ser levada pelo ar, ou então rodar muito devagar, para não fazer barulho ao passar junto de casas/pessoas doutras aldeias...
    
     Além da carroça, muníamos-nos de serras, serrotes (raramente machados, para não fazer muito ruído), cordas e picaretas/enxadões... O pessoal era obrigado a bom esforço físico, tanto para cortar e carregar as árvores, como para fazer rolar a carroça, por diversos tipos de piso... E, no escuro da noite, só tínhamos a ajuda do luar ou de lanternas a pilhas ("foxes").

     Havia uma grande rivalidade entre aldeias vizinhas, cada qual tentando surpreender (roubando) aos outros! Até chegávamos a simular ataques aos tiros ou à bomba, pelos cabeços abaixo, para afugentar outros competidores e apoderarmos-nos de certo cepo/árvore que eles pretendiam. Uma vez, um proprietário de um cepo já velho, junto à estrada da Bairrada, resolveu ir passar parte da noite junto do seu cepo, para o guardar. Mas, creio que acabámos por lhe deitar o fogo, ali mesmo no local, um tempo depois do Natal, já que não o conseguimos levar...

     Os madeiros eram guardados, escondidos em currais ou palheiros. No dia 24, à tardinha, era preparada a fogueira, com a colocação dos madeiros em pilha, juntamente com ramos e carquejas (ou até palha). À hora fixada, era então acesa, às vezes com a ajuda de óleo queimado, sobretudo se chovesse ou a lenha estivesse molhada. As labaredas e faúlhas iluminavam então o Largo da Fonte (actualmente Largo P.e José Alves Júnior), o local mais central da aldeia e, portanto, de eleição para todo o tipo de convívios e eventos...

     Junto da fogueira compareciam, então, quase todas as pessoas da aldeia. Por tradição, era nessa noite que se costumava fazer as filhós (ou "filhoses"). Havia quem trouxesse algumas para se provar, juntamente com algum vinho ou aguardente e, creio, até mel!...

     Costumava, às vezes, entoar-se alguns cânticos (de Natal ou outros), ao redor da fogueira. Um, muito usado, tinha a seguinte letra: "Natal, Natal, filhoses com mel não fazem mal; Natal, Natal, filhoses com vinho não fazem mal"... Era uma noite especial de convívio, do mais salutar e genuíno...

     Actualmente, as técnicas e tácticas para arranjar madeiros são outras, assim como o tamanho da fogueira!... Mas convém continuar a manter estas tradições...



Fotos da fogueira, no Natal de 2004
      

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Participação na Feira do Natal (dez2010)

     Mais uma vez, o Vale da Carreira esteve presente numa das feiras organizadas pelo Município de Proença-a-Nova: a Feira do Natal. Decorrendo nos dias 18 e 19 de dezembro, no Pavilhão Municipal, "a edição deste ano juntou as habituais feiras da filhó e do pão, além de expositores de artesanato." A mostra constou então de "sete expositores de produtos artesanais, além de 18 ligados a associações locais e ao agrupamento de escolas." (Cf. o site do Município de Proença-a-Nova: http://www.cm-proencanova.pt/

     O expositor da "LAVRAR - Liga dos Amigos do Vale da Carreira" foi um dos mais visitados, tendo os produtos expostos (filhós, pão, bolo finto, doces e compotas) tido boa venda e sido muito apreciados. 

     Aqui fica expresso o nosso (1)  muito obrigado aos que deram o seu contributo a este evento, especialmente às mulheres da aldeia, que mais uma vez se empenharam para a feitura dos produtos levados ao certame. De salientar que se pretende manter a forma de fazer as iguarias, em função das receitas típicas...

     Bem hajam, pois, e até à próxima participação! Para recordar, seguem algumas fotos da feira:



   
  
 
Estava tudo apetitoso!...

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(1) de Zé Luís e Jorge Alves.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aos tortulhos (gasalhos, pinheiras, míscaros, reigotas...)

     Estima-se que haja na Terra cerca de 70.000 espécies de cogumelos e cerca de 100 em Portugal. Na nossa terra são conhecidos tradicionalmente pela designação genérica de tortulhos. Eles resultam da frutificação de certos fungos, em determinadas condições de temperatura e humidade. Nas nossas zonas (temperadas), eles aparecem, então, nos meses de temperatura mais amena, ou de transição entre o calor e o frio e vice-versa.

     Os nossos antepassados foram aprendendo a conhecer as variedades específicas das suas terras, pelo que sempre apreciaram os que são comestíveis e evitaram os que são tóxicos (venenosos), diferenciando-os pelas suas formas, cores, cheiros e tamanhos. Os que são produzidos em estufas e vendidos nas superfícies comerciais são variedades seguras, mas já os que aparecem espontâneamente nos campos podem ou não ser usados na alimentação. Alguns são tão venenosos que basta uma dentada para matar uma pessoa adulta!

     A ciência (micologia) só mais recentemente se tem vindo a dedicar ao seu estudo, atribuindo-se muitos benefícios ao consumo destes fungos: possuem muitas proteínas, fibras, minerais e vitaminas, mas poucas calorias e gordura, sendo uma excelente dieta alimentar. Atribuem-se-lhes ainda propriedades antivirais, antibióticas, anti-inflamatórias e até antitumorais. Baixam o açúcar do sangue e a tensão arterial...

     Pode indicar-se como primeiro sintoma de envenenamento uma diarreia, acompanhada ou não de suores frios, tremores, vómitos, náuseas, alucinações ou delírios, umas horas até um a dois dias após a ingestão. Muitas vezes essa diarreia parece passar, mas o fígado (e, às vezes, os rins) continua a ser seriamente afetado... O transplante parece ser a única solução nos casos mais graves, mas mesmo assim pode não impedir a morte, caso seja tardio ou o envenenamento muito grande.

     Conselhos: é preciso ter muito cuidado e saber distinguir os comestíveis dos venenosos; na dúvida, não se deve sequer arriscar, pois os efeitos nocivos são quase sempre muito graves, podendo levar à morte... Há quem diga que se lhes juntar um dente de alho (ou uma colher de prata) e este/a ficar branco/a, são comestíveis, mas isso pode não ser seguro! O mesmo se pode dizer da preparação com azeite a ferver... Infelizmente, praticamente todos os anos surgem, nos meios de comunicação, notícias de mortes provocadas por cogumelos e, nalguns casos as pessoas dizem-se ser perfeitos conhecedores do assunto!... Isto vem mostrar que quem não os conhece bem, não deve arriscar; e mesmo quem pense ser bom conhecedor deve ter certos cuidados!...

     No outono, após alguns dias de chuva, principalmente com temperatura e humidade quase constantes, aparecem os "gasalhos". No entanto, deixam de nascer logo que arrefece demasiado e aparecem as primeiras geadas... Nos pinhais, surgem as "pinheiras" (entre outros tantos venenosos, pelo que muito pouca gente os sabe distinguir).


Dois gasalhos

Outros três, à espera de ser arranjados...

Estes ainda cresciam mais...

     Na primavera, quando os dias começam a aquecer, aparecem os "tortulhos" (no meio do mato, em locais mais soalheiros, virados a nascente), que quase sempre são apanhados debaixo da terra, (posteriormente, saem e abrem, mas deterioram-se bastante e secam. Até se costumava dizer-se que "se cantar o cuco, já não prestam"!). Ao lado dos caminhos, apareciam também outras pequenas "bolas ou batatas", que eram designadas de "reigotas", muito raras mas saborosas. Estas duas variedades, para não enganar, devem ter um cheiro característico: a terra...

     O aspecto do cogumelo é também muito importante: deve ter sempre a parte inferior muito limpa (se aberto) e não ter vestígios de insectos. Na sua preparação, deve-se retirar suavemente a pele, raspá-lo e usar-se pouca ou nenhuma água, pois oxida facilmente.

Já partidos, prontos a confeccionar...

     Tradicionalmente eram comidos de diversas maneiras, ainda hoje apreciadas: cortados às lascas e depois cozidos em arroz, guisados ou mexidos com ovo, assados na brasa (inteiros, com uma pitada de sal e um fio de azeite), etc...

Estes estão feitos com ovo...

     Podem juntar-se facilmente a qualquer ingrediente, pelo que apareceram agora muitas outras formas de preparação, tais como:

- Sopa rica de cogumelos;
- Estufado de cogumelos, entremeada e legumes;
- Lasanha de cogumelos;
- Quiche de cogumelos;
- Frango recheado com cogumelos;
- Salada de cogumelos;
- Torta com cogumelos;
- Strogonoff com cogumelos;
- Omelete com cogumelos;
- Feijoada com cogumelos;
- Pizza com cogumelos;
- Soja com cogumelos;
- Tofu com cogumelos...

... e tantas mais, conforme a imaginação de quem os queira confeccionar!...
  
BOM APETITE!
Mas CUIDADO!: se não os conhece, não arrisque!... Podem custar-lhe a vida...
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Informação adicional (oxalá nunca seja preciso): Centro de Informação Antivenenos: 808 250 143 

sábado, 20 de novembro de 2010

Aniversário duplo ("Dupla Felicidade"), no Vergão

No passado dia 3 de novembro, celebrou-se no Vergão o evento em epígrafe, do qual transcrevemos o artigo publicado no blogue dessa aldeia, a sugestão do meu primo Abílio Delgado.
Embora bastante atrasados, aqui ficam também os nossos parabéns às aniversariantes, minhas tia e prima.
Beijos.
Zé Luís.

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"DUPLA FELICIDADE:

     No dia 03 de novembro do corrente ano, mãe e filha celebraram mais uma data de felicidade, isto é, a "Ti Maria do Rosário" e a "Ti Ivone" festejaram 87 e 65 anos, respetivamente. Essa data foi celebrada com um almoço de aniversário (que se prolongou e deu até ao jantar), que teve lugar no passado sábado, dia 06 de novembro.



     Para os mais distraídos, a D. Maria do Rosário e a D. Ivone, mãe e filha, fazem anos no mesmo dia, o que com todo o respeito pelo aleatório, apresenta uma coincidência familiar que é de dupla felicidade. Neste repasto, que apresentou pratos e sabores com muita quantidade, diversidade e qualidade divinal, deixou com água na boca e com falta de espaço vazio no estômago, todos os presentes, sendo de realçar que todos os pratos que foram para as mesas foram elaborados por mãos dos familiares das aniversariantes.


     Os presentes na festa, além de alguns amigos extra-família, foram as 3 gerações representadas na Árvore Genealógica, que tem como origem duas pessoas ímpares da aldeia do Vergão, o Sr. António Delgado e a D. Maria do Rosário.


     Todos os presentes saíram muito felizes e satisfeitos com mais uma representação efectiva da união familiar, na pessoa das duas aniversariantes, com a promessa que, daqui a 1 ano, estaremos todos juntos novamente para mais uma data celebrativa desta dupla felicidade.


     De toda a família e amigos, segue um sincero e profundo sentimento de parabéns e muitas felicidades a ambas.

João Paulo Tavares"

(Nota: O João Paulo é neto da Tia Maria do Rosário e filho de Maria Ivone/Manuel Romão)

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MARIA DO ROSÁRIO

     Há 87 anos, nascia no Vale da Carreira uma menina, que, muito cedo, foi tirada do ninho familiar, para outro lar nas Cimadas, que lhe deu o pão e a educação, e, mais tarde no Vergão, formou o seu lar.

     Tão difíceis eram os tempos e tão parcos os haveres, que nem tiveste direito a herdar da família o nome. Simplesmente MARIA DO ROSÁRIO. Sorte a tua. Herdaste tudo de NOSSA SENHORA DE FÁTIMA:

MARIA: a Mãe, o Amor, a Bondade, a Doçura, a Ternura, a Paz, o Bem, a Santidade;
DO ROSÁRIO: do Terço, da Oração, da Súplica, do Sacrifício, da Fé, da Luz, da Esperança.

     Num dos teus aniversários, foste prendada por uma linda menina, a tua primeira MARIA. Lindo! O que os anos nos fazem quando fazemos anos!

     Na tua casa, com pouco luxo, mas com muito calor, soubeste construir um lar, onde nunca faltou AMOR, nem PÃO, nem EDUCAÇÃO, nem EXEMPLO. Soubeste transmitir-nos os valores mais nobres da vida, que ainda hoje nos orientam.

     Sempre disponível para ajudar e encorajar os outros, com uma capacidade de doação extraordinária, tudo aceitavas com resignação e força de vida, vergavas mas nunca partiste, ainda hoje és a estrela que nos guia.

     As tuas 4 filhas presenteaste com o nome de MARIA, para lhes transmitires o melhor que tinhas. Mais ricas que tu, tiveram o direito e a responsabilidade de transportarem consigo o nome da família DELGADO.

     Hoje estás feliz porque acabaste de ultrapassar mais um obstáculo, e porque tens contigo todos os teus filhos, herdeiros diretos das tuas virtudes e dos teus valores.

     PARABÉNS, MARIA DO ROSÁRIO. OBRIGADO, MÃE.

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MARIA IVONE

     Sendo a primeira MARIA, tiveste a enorme responsabilidade de iniciar outra geração, levando contigo tudo o que de bom este nome contém. Como MULHER, soubeste manter, conservar, aumentar e transmitir todas as virtudes de MARIA.

     Sendo a primeira, sempre foste mais responsável, tal como eu, cresceste demasiado depressa. Sendo crianças, tínhamos de ser adultos, mas como éramos jovens adultos, por vezes a criança falava mais alto e vinham as discórdias na partilha da sardinha, as rizadas malucas durante o terço, ou as brincadeiras que o campo nos proporcionava. Como éramos tão felizes com quase nada! Tanto alvoroço para "Pedir os Bolinhos", agora o "Pão por Deus". Tanta ansiedade para ver a prenda de Natal, umas meias ou um lenço. Éramos tão felizes porque já tínhamos tantos valores!

     Sou feliz entre as mulheres que fazem parte da minha vida: a minha Mãe, as minhas Irmãs, a minha Esposa e a minha Filha, a única que não é Maria. Com este simples gesto, hoje quero prestar uma grande homenagem e manifestar o meu afeto e o meu amor a duas destas MARIAS. Que Deus vos proteja!

     PARABÉNS, MARIA IVONE. OBRIGADO, MANA.

Abílio Delgado

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Transcrição/adaptação do artigo publicado no blogue do Vergão: http://vergaodetodosnos.blogspot.com/

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Editado em dez2018: A tia Maria do Rosário tem agora 95 anos... Parabéns!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fazendo aguardente no alambique comunitário

     Tão normal como fazer o vinho com as uvas criadas nas nossas terras, era o fabrico de aguardente no alambique comunitário da aldeia. Apesar de ser proibido no tempo do regime político que vigorou até 1974, tal não desmotivava os nossos pais e avós... Nesses tempos, houve apenas algum cuidado em o fazer de forma mais discreta. Creio que o alambique costumava estar guardado numa das casas do meio da aldeia e aí se fazia a aguardente. Mas, depois do 25 de abril, passou a ir de casa em casa, à medida que os moradores combinavam os dias para o seu uso. (Presentemente, parece que já não é usado  que pena!...)

     Depois de feita a vindima, as uvas eram pisadas e feito o mosto, com recurso quase exclusivamente  ao peso corporal dos homens (ou mulheres), descalços ou com botas de borracha. A maior parte desse mosto servia para encher a(s) pipa(s), para vinho. Mas os restos (as peles, os escardaços/cardaços, as pevides) continuavam no local (lagar, tanque ou recipiente, etc.) onde tinham sido pisadas as uvas e aí eram conservados, a fermentar, durante mais cerca de 9 dias. Várias vezes ao dia, a mistura era mexida e se evitava que se lhe juntassem mosquitos, tapando-a com panos ou redes...

     O alambique era de cobre, normalmente fabricado pelos latoeiros que havia na zona. A parte de cima, a cabeça, era afixada com a ajuda de uma massa de farinha (de centeio) com água, para vedar o vapor. Igual massa servia para vedar a água, em volta do tubo condensador, de que se fala a seguir.

Alambique

     Depois de colocada uma certa quantidade da mistura fermentada no interior do alambique (até um pouco abaixo do fundo do gargalo), este era colocado em suportes próprios, em cima do lume, para a mistura ferver e libertar vapor. Este era obrigado a sair pelo cano/tubo comprido (condensador/serpentina), que descia do cimo da cabeça, passava por dentro de um recipiente com água fria  e escorria, já condensado e em pequena quantidade, pelo final do tubo.

     O lume que ardia e dava calor devia ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. As "torgas" (raízes de uma certa moita do campo) eram a melhor lenha para isso, pois ardiam uniformemente, durante longo período de tempo. 

     A aguardente saía quente, sendo depois guardada em garrafas e/ou garrafões, que seriam conservados bem fechados, depois de ter arrefecido. Costumava usar-se um cálice muito pequeno para provar a aguardente: se era saborosa, se não cheirava a fumo, se era forte ou fraca... Ao lançar-se um pouco dela às brasas, se ardesse rapidamente, fazendo chama, era sinal de estar forte, ainda ser boa...

     Era muito frequente os mais velhos pregarem "partidas" aos rapazes adolescentes, desafiando-os a beberem, de uma só vez (de um trago), um cálice dessa aguardente e imediatamente depois gritarem: "Ó Elvas, ó Elvas". Evidentemente que a voz fica presa! E era engraçado ver essa malta a fugir que nem uns tontos à procura de água!... Bem me lembro de também eu ter caído numa dessas "partidas"!

     A primeira aguardente retirada de cada alambicada, era por vezes aproveitada para ser usada como álcool, para as mezinhas caseiras e curativos... A restante ia sendo cada vez mais fraca, à medida que decorria a fervura da mistura. Era normal, pois, misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.

     Uma vez fiquei sozinho a fazer aguardente, enquanto os meus pais foram acabar de plantar umas couves na "Conecril". Quando eles regressaram, embora o alambique continuasse a produzir bem e eu tivesse apenas retirado 2 a 3 litros, achava que seria já o suficiente para aquela alambicada, "pois a aguardente já saía fraca, parecia-me água". No entanto, o meu pai, mais sabedor do assunto, tratou logo de verificar: provou a aguardente, lançou um pouco dela às brasas e respondeu-me: "Não está nada fraca, tem de dar ainda mais 1 a 2 litros. Ora, tu é que já bebeste muita!..."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Olhando para o céu (principalmente de noite), Eclipses, etc.

     Na nossa aldeia, durante as noites sem nuvens, principalmente no verão, na altura das desencamisadas, ou quando se permanecia bastante tempo fora de casa ao fresco, ou ainda quando se ia caminhando, um dos temas de conversa muito abordado pelos nossos antepassados era relativo ao céu (firmamento), com as suas diversas fontes de luz: estrelas, planetas, constelações, etc.

     A fraca luminosidade no meio rural (ainda mais pronunciada antigamente, sem energia eléctrica) ajuda a ver o céu (firmamento), melhor se distinguindo nele os diversos objectos luminosos.

A Via Láctea ou "Estrada de Santiago".

     Bem conhecida dos antigos era a "Estrada de Santiago": parece um rasto de inúmeros pontos pequenos, ao qual pertence a Terra e o Sistema Solar: é a nossa galáxia, ou "Via Láctea". Os antigos normalmente não sabiam isso, mas os estudantes que começavam a aprender Astronomia (na disciplina de Geografia, creio), esclareciam-nos, dando mais umas dicas... Aproveitavam também para explicar a diferença entre os diversos pontos luminosos do céu:  as estrelas (com luz cintilante), que são em muito maior quantidade que os planetas (de luz fixa).

     Falava-se também de "estrelas cadentes" (meteoritos ou meteoroides, que ao entrarem na atmosfera terrestre, se fragmentam e ardem, mas em alguns casos chegam a atingir a Terra, com alguma violência - veja-se o caso recente na Rússia, com mais de mil feridos, (próximo de Chelyabinsk), bem como outro na Sibéria, em 1908 (Tunguska). E também de cometas (astros raros, compostos de núcleo, cabeleira e cauda - esta sempre na direção oposta ao Sol), assim como dos eclipses e como se formavam. Quando se via algum ponto luminoso a passar depressa, falava-se da possibilidade de ser um avião ou um satélite, já que os últimos começaram a ser lançados, a partir do fim da década de 50 e início da de 60...


Cometa.

Estrela cadente.

   
     Existem ainda os asteroides, que são corpos rochosos e metálicos que possuem órbita definida ao redor do Sol. São semelhantes aos meteoros, porém em dimensões bem maiores, possuindo forma e tamanhos indefinidos, mas têm geralmente a dimensão de algumas centenas de quilómetros. (Já que neste ano se podem observar vários cometas e asteroides, veja o artigo de 07jan2013)


Asteroide.

     Quanto aos agrupamentos de estrelas, as chamadas constelações (atualmente são consideradas 88 pela União Astronómica Internacional), muito faladas eram a Ursa Maior (também chamada de carro, arado, caçarola) e a Ursa Menor. Explicava-se como, a partir da Ursa Maior se achava o Norte, descobrindo a Estrela Polar, a última da cauda da Ursa Menor.

     Outras constelações que todos aprendíamos a localizar no céu eram: o Orion (quadrilátero com mais 3 estrelas, muito próximas e alinhadas no seu centro - as "Três Marias") e a Cassiopeia (tem a forma dum W).

Cassiopeia e Orion.

     Eis um outro conjunto de estrelas, o "Sete-Estrelo" (também conhecido por "Sete Irmãs"), muito próximas umas das outras (hoje em dia, sabe-se que são muito mais de sete), o que confere ao conjunto um brilho grande, azulado, diferente do geral. São universalmente mais conhecidas por "Plêiades" "ou Aglomerado Estelar M45" - ver http://www.guia.heu.nom.br/pleiade.htm - e pertencem à constelação de "Touro".

O Aglomerado M45 ou "Sete-Estrelo".

O "Sete-Estrelo" ampliado por telescópio.

     Os planetas mais próximos de nós (Marte, Vénus, Mercúrio, Júpiter) são muitas vezes visíveis, embora não seja fácil identificá-los. Próximo do anoitecer e do amanhecer vê-se perfeitamente um dos planetas mais próximos de nós: Vénus, chamado de "estrela da manhã", "estrela da tarde" ou "estrela do pastor".

O planeta Vénus (e à direita, o planeta Mercúrio).

     Quanto ao satélite natural da Terra, a Lua, também havia muitas conversas em seu redor: além dos eclipses, falava-se na lenda das suas manchas: "Uma vez, andava um homem a trabalhar ao domingo apanhando silvas. Deus apareceu-lhe e perguntou porque trabalhava aos domingos. Respondeu ele que o fazia porque ninguém o via naquele canto isolado. Retorquiu o Senhor que, a partir daí, toda a gente o iria ver. E Deus colocou na Lua o homem com o molho de silvas às costas". A isso se deviam as suas manchas... Na verdade, elas são mares ou planícies de solo escuro, formados outrora pela lava que brotou dos vulcões lunares...

A Lua e suas "manchas".


As crateras da Lua, vistas com telescópio.

Uma grande cratera na Lua.

Eclipse parcial da Lua.
   
     No que diz respeito aos eclipses, os mais vistosos e atraentes são os totais do Sol! É que a Lua encobre completamente e de forma quase perfeita o Sol, deixando em seu redor uma auréola brilhante. Outros também espectaculares são os híbridos do Sol: numa parte da Terra são vistos como totais e noutras como anelares (ou anulares). Mas tanto uns como outros, são apenas presenciados em estreitas faixas ao longo da Terra, pelo que são muito raros... Seguem fotos de alguns:

Eclipse total do Sol.

Eclipse anular.

     Eis agora uma imagem da Lua, com o planeta Júpiter próximo (foto tirada em 02jan2012, dia a seguir a Quarto Crescente):


A “Super Lua Cheia" de 2013:

A fase de Lua Cheia acontece próxima do perigeu só uma vez por ano e em 2013, acontece no dia 23 de Junho. (..) Por isso, a Lua estará mais exuberante por atingir a distância mínima da Terra em fase de Lua Cheia. O disco lunar terá um tamanho aparente 14% maior e será 30% mais brilhante do que a Lua no apogeu.

Tamanhos relativos da Lua no apogeu e no perigeu.

(Transcrito do site do Observatório Astronómico de Lisboa: http://oal.ul.pt/super-lua-23-jun-2013/)

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OBS.:

1. Para quem quiser explorar um pouco mais e ver a posição das estrelas, constelações, etc., ao longo do ano, e dado que o "AstroViewer Online" deixou de funcionar, tente usar uma aplicação como as recomendadas em: 
http://www.sp-astronomia.pt/node/642

2. Eclipses - Em média, ocorrem 4 a 5 eclipses por ano, mas nem metade deles são visíveis em Portugal - (em 2018, houve 5 eclipses: 3 parciais do Sol e 2 totais da Lua). Em Portugal apenas foi visível o Total da Lua, de 27 de julho.

3. Alguns dos próximos eclipses totais/anulares do Sol (os mais espectaculares):


     - 02jul2019 (América do Sul - Argentina/Chile)
     - 14dez2020 (América do Sul - Argentina/Chile)
     - 14out2023 (Américas)
     - 12ago2026 (Europa - Pen. Ibérica, até à Gronelândia e Ártico)
     - 06fev2027 (Costa Este do Brasil)
     - 02ago2027 (desde o Índico até ao SW da Europa)
     - 26jan2028 (da Pen. Ibérica até ao Norte da América do Sul)  

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Actualizado em 24mar2018