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sábado, 30 de abril de 2011

Valha-nos Santa Bárbara!

     Agora que estamos no período em que são mais frequentes as trovoadas no interior de Portugal (abril/maio/junho), lembrei-me de escrever sobre Santa Bárbara, tida como protetora contra as trovoadas...

     Lembro-me de, em pequeno, ver a minha mãe atarefada a fazer fogueira e queimar alecrim (e ramos de oliveira), ao mesmo tempo que rezava a Santa Bárbara, sempre que surgia uma grande trovoada...

     Valha-nos santa Bárbara, Santa Bárbara nos livre desta tormenta, ou outras frases parecidas eram proclamadas com fé, pedindo à santa proteção contra os relâmpagos e as trovoadas.

     Esta santa é venerada tanto pela Igreja Católica como pela Igreja Ortodoxa. Na Liturgia da Igreja Católica, o dia de Santa Bárbara é comemorado a 4 de dezembro. Ela é tida como a padroeira de muitos ofícios, nomeadamente dos que trabalham com o fogo (bombeiros, fogueteiros, artilheiros, mineiros, pirotécnicos, eletricistas, etc...) e também dos ligados à construção (arquitetos, pedreiros, carpinteiros, etc...).
   
    
     Nas imagens, é geralmente apresentada como uma virgem, alta, majestosa, com uma palma significando o martírio, um cálice como símbolo da sua proteção em favor dos moribundos e uma espada, instrumento da sua morte.

     Por ter sido (ou ser ainda) uma santa muito venerada, o seu nome está ligado a muitos locais. Aponto, por exemplo:

     Em Portugal:

     - Santa Bárbara, freguesia e serra do concelho de Angra do Heroísmo;
     - Santa Bárbara, lugar do Concelho das Lajes do Pico;
     - Santa Bárbara, freguesia do concelho da Lourinhã;
     - Santa Bárbara, freguesia do concelho de Ponta Delgada;
     - Santa Bárbara, freguesia do concelho da Ribeira Grande,
     - Santa Bárbara, freguesia do concelho da Vila do Porto;
     - Santa Bárbara de Nexe, freguesia do concelho de Faro.

     No Brasil:

     - Santa Bárbara d'Oeste, município do estado de São Paulo;
     - Santa Bárbara, município do estado de Minas Gerais;
     - Santa Bárbara, município brasileiro do estado da Bahia;
     - Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, estado da Bahia;
     - Santa Bárbara, bairro da cidade fluminense de Niterói;
     - Santa Bárbara, bairro/favela em Palmas, Tocantins;
     - Santa Bárbara, bairro de Cariacica, no estado do Espírito Santo;
     - Ilha de Santa Bárbara, no arquipelágo de Fernando de Noronha, no estado de Pernambuco;
     - Águas de Santa Bárbara, cidade do estado de São Paulo;
     - Santa Bárbara do Sul, município no estado do Rio Grande do Sul;
    
     Em Cabo Verde:

     - Santa Bárbara, freguesia na Ilha de Brava;

     No Chile:

     - Santa Bárbara, comuna localizada na província de Biobío;

     Na Colômbia:

     - Santa Bárbara, município no departamento de Antioquia.

     Outro locais se poderiam indicar, por exemplo, na Costa Rica, nos Estados Unidos da América (Califórnia), na Guatemala, nas Honduras, no México, na Venezuela...

História/Lenda de Santa Bárbara:

     Segundo as tradições católicas, Bárbara foi uma jovem nascida na cidade de Nicomédia (atualmente Izmit), na Turquia, nos fins do século terceiro da era cristã. Era a filha única de um rico e nobre habitante desta cidade do Império Romano chamado Dióscoro. Com receio de deixar a filha no meio da sociedade corrupta daquele tempo, o pai decidiu fechá-la numa torre. Por ser muito bela e, acima de tudo, rica, não lhe faltavam pretendentes para casamento, mas Bárbara não aceitava nenhum.

     Desconcertado diante da cidade, Dióscoro estava convencido de que as "desfeitas" da filha se deviam ao facto dela ter ficado trancada muitos anos na torre. Então, ele permitiu que ela fosse conhecer a cidade. Durante essa visita, ela teve contacto com cristãos, que lhe contaram sobre os ideais de Jesus, sobre o mistério da união da Santíssima Trindade. Pouco tempo depois, um padre vindo de Alexandria deu-lhe o Batismo.

     Em certa ocasião, o seu pai "decidiu construir uma casa de banho com duas janelas para Bárbara. Todavia, dias mais tarde, ele viu-se obrigado a fazer uma longa viagem. Enquanto viajava, a filha ordenou a construção de uma terceira janela na torre, visto que a casa de banho ficaria na torre. Além disso, ela esculpira uma cruz sobre a fonte".

     Quando o pai voltou, "reparou que a torre onde tinha trancado a filha tinha agora três janelas em vez das duas que ele mandara abrir. Ao perguntar à filha o porquê das três janelas, ela explicou-lhe que isso era o símbolo da sua nova fé. Este facto deixou o pai furioso, pois ela se recusava a seguir a fé dos Deuses do Olimpo".

     "Debaixo de um impulso", como alegam as tradições, "e obedecendo à sua fé, o pai denunciou-a ao Prefeito Martiniano. Este mandou-a torturar numa tentativa de a fazer mudar de ideias, o que não aconteceu. Foi então condenada à morte por degolação".

     Depois de lhe cortarem os seios, foi conduzida para fora da cidade onde o seu próprio pai a executou, degolando-a. Quando a cabeça de Bárbara rolou pelo chão, um imenso trovão ribombou pelos ares fazendo tremer os céus e um relâmpago fulminou o seu pai Dióscoro. - (adaptado da Wikipedia)

     A reza (ou oração) à santa  assume diversas formas, umas mais abreviadas do que outras. Numa pesquisa que fiz, encontrei, por exemplo:

Santa Bárbara bendita,
Que no céu está escrita
Com papel e água benta
Espalhai esta tormenta.

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Santa Bárbara bendita,
Que no céu está escrita
E na terra assinalada
Com papel e água benta
Quantos anjos há no céu
Acompanhem nossas almas
Espalhem esta tormenta.

-------

Santa Bárbara bendita,
Que no céu estais escrita
Com papel e água benta
Livrai-nos desta tormenta.

Espalhai-a lá para bem longe
Onde não haja eira nem beira
Nem raminho de oliveira
Nem raminho de figueira.

Nem mulheres com meninos
Nem ovelhas com borreguinhos
Nem vacas com bezerrinhos
Nem pedrinhas de sal
Nem nada a que faça mal.
Amém!


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Santa Bárbara, que sois mais forte
que as torres das fortalezas
e a violência dos furacões,
fazei que os raios não me atinjam,
os trovões não me assustem
e o troar dos canhões não me abalem
a coragem e a bravura.
Ficai sempre ao meu lado para que
possa enfrentar de fronte erguida
e rosto sereno todas as tempestades
e batalhas de minha vida, para que,
vencedor de todas as lutas,
com a consciência do dever cumprido,
possa agradecer a vós,
minha protetora, e render graças a Deus,
criador do céu, da terra e da natureza:
este Deus que tem poder de dominar
o furor das tempestades e abrandar
a crueldade das guerras.
Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

(ou: Santa Bárbara, rogai por nós!)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Participação na III Feira das Sopas e do Maranho

     Através da sua Associação LAVRAR, a aldeia participou na 3.ª Feira das Sopas e do Maranho, que teve lugar nos dias 9 e 10 de abril (fim de semana), em Proença-a-Nova.

     Em primeiro lugar, é justo e oportuno expressar o nosso muito obrigado a todos os que se empenharam na realização do evento. No caso dos valecarreirenses, agradecemos especialmente às nossas incansáveis e prestáveis mulheres, que, apesar de poucas, nos deleitaram com magníficas iguarias. E ao sempre dedicado Jorge Alves, Tesoureiro da LAVRAR, bem como ao António Joaquim ("Lavrador"), que se dedicou ao transporte dos produtos "mais delicados e sensíveis"!

     De facto, elas empenharam-se em preparar as sopas, maranhos, pão, tigeladas, filhós, etc, de acordo com as receitas típicas. Aqui se recordam alguns dos momentos da preparação dos "petiscos", bem como do ambiente da feira, que teve lugar no Pavilhão Municipal.

     Como se refere no artigo publicado no "site" do nosso município (http://www.cm-proencanova.pt/noticias/index.asp?IDN=1297&op=2), participaram nesta feira "seis associações e três casas comerciais". "No sábado à noite a animação musical esteve a cargo do acordeonista e organista Gilberto Neves, enquanto na tarde de domingo subiram ao palco 'Os Amigos da Concertina'”.   

     Agradecemos ainda aos dirigentes/vereadores municipais o convite para a participação e algumas dádivas (taças para as sopas, caçoilos para tigeladas - alguns tinham sobrado de anteriores feiras). Da nossa parte, esperamos poder voltar a participar em próximos certames do género, apesar do esforço para a concretização estar a ser cada vez maior para os habitantes da aldeia, que "são poucos e quase sempre os mesmos!"...

     E obrigado também a todos os que nos honraram com a sua visita, dando o seu contributo para a obtenção de mais uma pequena verba, que esperamos venha a ser mais um contributo para a construção da futura sede da nossa querida Associação LAVRAR. (Criada há cerca de 11 anos, ainda não tem uma sede própria, coitadinha!... - Não há por aí quem nos faça um substancial donativo?...)  
    
     Seguem fotos alusivas ao evento:

A feitura do pão:
 


As sopas (falta aqui o 'caldo verde'):



As filhós e tigeladas:



À nossa volta:





E sempre com animação musical:

(Nota: fotos de amador, como se vê!...)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Entrudo de antigamente

     Antigamente, na nossa aldeia, o Entrudo (que significa "entrada na Quaresma", ou Carnaval = "adeus à carne"), era vivido de forma muito simples, genuína e divertida, talvez mais do que agora. Não havia tentativas de imitar outros de outras paragens, pois não se via TV, nem se liam jornais, etc.
    
     Na manhã desse dia, os homens juntavam-se e iam arranjar os principais caminhos que partiam da aldeia para os campos (da estrada até à eira; desta até ao Vale do Russinho; do Fundo do Lameiro até Bouça Enxuta; da Conecril até Pernadinhas e Vale das Ovelhas; etc.). Com as chuvadas do inverno, os caminhos degradavam-se, abriam regueiras, pelo que era preciso recolocar terra, pedras, desviar águas, etc... Assim ficariam mais transitáveis para o período de primavera/verão, em que seriam mais usados...

     Em muitas das famílias, por grande influência da religião (ia entrar-se na Quaresma, período de jejum e abstinência que antecede a Páscoa), nesses dias, entre o Domingo, o chamado "Domingo-Gordo", e a terça-feira, dia do Entrudo, fazia-se o "adeus à carne". Assim, o almoço devia ter por base a carne de porco. Fosse um cozido com couve, toucinho, bucho, etc., ou grão cozido com massa e couve, cabeça, chispe e rabo de porco (uma espécie de rancho, à nossa moda)...

     Na parte da tarde desse dia, já não se costumava trabalhar: as pessoas dedicavam-se às brincadeiras/ partidas de Entrudo/Carnaval.

     Começo por referir que não havia grandes vestimentas, disfarces ou apetrechos. Era muito frequente as raparigas e os rapazes vestirem-se com roupas velhas e andarem pela aldeia, pregando partidas uns aos outros.
    
     Uma das formas de divertimento era "mascarrar" os outros com as mãos, negras de fuligem do forno do pão, após se terem esfregado nas paredes deste. Depois corria-se atrás de uns e outros até lhes "pintar" a cara. (Às vezes quem pagava era a roupa, por isso se devia andar mais mal vestido...) Atirar água e farinha era outra das formas de "abordar" alguém...
    
     Apesar de parecer que essas formas de passar o dia poderiam trazer consequências negativas, tal não acontecia. Em vez disso, era fortalecido o espírito de convívio entre toda a aldeia, a alegria reinava e todos se distraiam e divertiam. Às vezes o contacto pessoa a pessoa "ajudava a quebrar algum gelo" e mais as pessoas se aproximavam. Casos houve em que alguns começaram a namorar após essas partidas: "- Aleijaste-me!" "- Desculpa, foi sem querer!"... "Para fazer as pazes, dá cá/toma lá um beijinho..."
    
     E assim se passava normalmente toda a tarde do dia de terça-feira. Pois o Entrudo resumia-se unicamente a esse dia, e não aos anteriores. Só mais recentemente se começou a usar o ditado "a vida são dois dias e o Carnaval são três; por isso divirta-se"!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os nomes dos locais da aldeia (toponímia)

Segue uma relação (para ir completando, gradualmente) com os nomes atribuídos pelos nossos antepassados aos diversos locais de cultivo: hortas, courelas, olivais, floresta, etc.:

- Açude
- Atalhinhos
- Atalhos
- Azenha
- Bacelo
- Barreirinhas
- Barroca da Corga
- Barroco Fundeiro
- Bouça Enxuta
- Bouça Velha
- Cabeçalta
- Cabeço Alto
- Cabulo
- Cão do Currel (ou Covão do Curral) *
- Cão da Ucha
- Castanheiros
- Cerro da Portelinha
- Cimo da Corga
- Cimo da Corguinha Madeiros
- Cimo do Vale
- Cimo do Valtorno
- Có Ferreiro (ou Corga do Ferreiro) *
- Có Friura
- Có Palerto
- Có Raposas
- Có Salgueiro
- Conecril (ou Corga do Alecrim)
- Corga
- Corga da Fonte
- Corga de Frade
- Corguinha Madeiros
- Corguinha (ou Correguinha) Videira
- Cortimpires (ou Corga Tio Pires)
- Costa do Cão
- Costa Galega
- Covão
- Eira
- Fonte Velha
- Fundo do Lameiro
- Fundo do Povo
- Horta do Meio
- Horta Nova
- Hortas
- Hortelha
- Lameiras
- Lameiro
- Lenteiro (ou Linteiro)
- Moinho (ou Munho)
- Nateiro
- Pernadinhas
- Piçarras (ou Picerras)
- Portela
- Ribeira (de Mesão Frio)
- Tapada(s)
- Tapada Cimeira
- Tapada de Trás
- Tapada Fundeira
- Valdanta (ou Vale d´Anta) *
- Vale da Estrada
- Vale da Figueira
- Vale das Ovelhas
- Vale de Sete
- Vale (do) Russinho
- Vale Indreu
- Vale Travesso
- Valitos
- Valtorno (ou Vale Torno)
- Varja Grande
- Varja Videira
- Varjas

* Nota: Os termos "cão", "có" e "val" são abreviaturas de "covão", "corga" e "vale", respetivamente... "Varja" é o mesmo que "Várzea".

(Obrigado ao Fernando Alves, que me lembrou alguns. Quem conhecer outros locais, que mos indique, por favor...)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A fogueira de Natal e a ida aos madeiros

     Nos dias que antecediam a noite de Natal, os rapazes da aldeia reuniam-se e, pela calada da noite, começavam a juntar os madeiros para a fogueira que iria ser acesa na noite de Natal. (Lembro-me dum ano em que também as raparigas se juntaram aos rapazes, quando fomos na camioneta do falecido primo Domingos Mendes carregar troncos de oliveira, entre o nó do IC8 e a "Fonte de Meio Alqueire" - quem sabe onde é?)...

Madeiros preparados para a fogueira (em Proença, 2010 - foto do Raul Sonso)     

     Normalmente, já se tinha "deitado o olho" às azinheiras e/ou oliveiras que seriam "sacrificadas", quer estivessem ou não abandonadas. Tanto podiam estar ainda em crescimento como já cortadas, ou apenas ser um bocado (cepo, tronco, etc.)...

     As árvores eram quase sempre pertencentes a alguém de fora da aldeia. Portanto, era conveniente que ninguém se apercebesse da apropriação das mesmas! Como tal, havia um secretismo máximo tanto na seleção das árvores como no seu abate, transporte e guarda até ao dia em que iriam ser queimadas.

     A lenha era transportada numa carroça (se necessário, duas), que os rapazes puxavam e/ou empurravam. Lembro-me de algumas vezes ter de ser levada pelo ar, ou então rodar muito devagar, para não fazer barulho ao passar junto de casas/pessoas doutras aldeias...
    
     Além da carroça, muníamos-nos de serras, serrotes (raramente machados, para não fazer muito ruído), cordas e picaretas/enxadões... O pessoal era obrigado a bom esforço físico, tanto para cortar e carregar as árvores, como para fazer rolar a carroça, por diversos tipos de piso... E, no escuro da noite, só tínhamos a ajuda do luar ou de lanternas a pilhas ("foxes").

     Havia uma grande rivalidade entre aldeias vizinhas, cada qual tentando surpreender (roubando) aos outros! Até chegávamos a simular ataques aos tiros ou à bomba, pelos cabeços abaixo, para afugentar outros competidores e apoderarmos-nos de certo cepo/árvore que eles pretendiam. Uma vez, um proprietário de um cepo já velho, junto à estrada da Bairrada, resolveu ir passar parte da noite junto do seu cepo, para o guardar. Mas, creio que acabámos por lhe deitar o fogo, ali mesmo no local, um tempo depois do Natal, já que não o conseguimos levar...

     Os madeiros eram guardados, escondidos em currais ou palheiros. No dia 24, à tardinha, era preparada a fogueira, com a colocação dos madeiros em pilha, juntamente com ramos e carquejas (ou até palha). À hora fixada, era então acesa, às vezes com a ajuda de óleo queimado, sobretudo se chovesse ou a lenha estivesse molhada. As labaredas e faúlhas iluminavam então o Largo da Fonte (actualmente Largo P.e José Alves Júnior), o local mais central da aldeia e, portanto, de eleição para todo o tipo de convívios e eventos...

     Junto da fogueira compareciam, então, quase todas as pessoas da aldeia. Por tradição, era nessa noite que se costumava fazer as filhós (ou "filhoses"). Havia quem trouxesse algumas para se provar, juntamente com algum vinho ou aguardente e, creio, até mel!...

     Costumava, às vezes, entoar-se alguns cânticos (de Natal ou outros), ao redor da fogueira. Um, muito usado, tinha a seguinte letra: "Natal, Natal, filhoses com mel não fazem mal; Natal, Natal, filhoses com vinho não fazem mal"... Era uma noite especial de convívio, do mais salutar e genuíno...

     Actualmente, as técnicas e tácticas para arranjar madeiros são outras, assim como o tamanho da fogueira!... Mas convém continuar a manter estas tradições...



Fotos da fogueira, no Natal de 2004
      

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Participação na Feira do Natal (dez2010)

     Mais uma vez, o Vale da Carreira esteve presente numa das feiras organizadas pelo Município de Proença-a-Nova: a Feira do Natal. Decorrendo nos dias 18 e 19 de dezembro, no Pavilhão Municipal, "a edição deste ano juntou as habituais feiras da filhó e do pão, além de expositores de artesanato." A mostra constou então de "sete expositores de produtos artesanais, além de 18 ligados a associações locais e ao agrupamento de escolas." (Cf. o site do Município de Proença-a-Nova: http://www.cm-proencanova.pt/

     O expositor da "LAVRAR - Liga dos Amigos do Vale da Carreira" foi um dos mais visitados, tendo os produtos expostos (filhós, pão, bolo finto, doces e compotas) tido boa venda e sido muito apreciados. 

     Aqui fica expresso o nosso (1)  muito obrigado aos que deram o seu contributo a este evento, especialmente às mulheres da aldeia, que mais uma vez se empenharam para a feitura dos produtos levados ao certame. De salientar que se pretende manter a forma de fazer as iguarias, em função das receitas típicas...

     Bem hajam, pois, e até à próxima participação! Para recordar, seguem algumas fotos da feira:



   
  
 
Estava tudo apetitoso!...

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(1) de Zé Luís e Jorge Alves.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aos tortulhos (gasalhos, pinheiras, míscaros, reigotas...)

     Estima-se que haja na Terra cerca de 70.000 espécies de cogumelos e cerca de 100 em Portugal. Na nossa terra são conhecidos tradicionalmente pela designação genérica de tortulhos. Eles resultam da frutificação de certos fungos, em determinadas condições de temperatura e humidade. Nas nossas zonas (temperadas), eles aparecem, então, nos meses de temperatura mais amena, ou de transição entre o calor e o frio e vice-versa.

     Os nossos antepassados foram aprendendo a conhecer as variedades específicas das suas terras, pelo que sempre apreciaram os que são comestíveis e evitaram os que são tóxicos (venenosos), diferenciando-os pelas suas formas, cores, cheiros e tamanhos. Os que são produzidos em estufas e vendidos nas superfícies comerciais são variedades seguras, mas já os que aparecem espontâneamente nos campos podem ou não ser usados na alimentação. Alguns são tão venenosos que basta uma dentada para matar uma pessoa adulta!

     A ciência (micologia) só mais recentemente se tem vindo a dedicar ao seu estudo, atribuindo-se muitos benefícios ao consumo destes fungos: possuem muitas proteínas, fibras, minerais e vitaminas, mas poucas calorias e gordura, sendo uma excelente dieta alimentar. Atribuem-se-lhes ainda propriedades antivirais, antibióticas, anti-inflamatórias e até antitumorais. Baixam o açúcar do sangue e a tensão arterial...

     Pode indicar-se como primeiro sintoma de envenenamento uma diarreia, acompanhada ou não de suores frios, tremores, vómitos, náuseas, alucinações ou delírios, umas horas até um a dois dias após a ingestão. Muitas vezes essa diarreia parece passar, mas o fígado (e, às vezes, os rins) continua a ser seriamente afetado... O transplante parece ser a única solução nos casos mais graves, mas mesmo assim pode não impedir a morte, caso seja tardio ou o envenenamento muito grande.

     Conselhos: é preciso ter muito cuidado e saber distinguir os comestíveis dos venenosos; na dúvida, não se deve sequer arriscar, pois os efeitos nocivos são quase sempre muito graves, podendo levar à morte... Há quem diga que se lhes juntar um dente de alho (ou uma colher de prata) e este/a ficar branco/a, são comestíveis, mas isso pode não ser seguro! O mesmo se pode dizer da preparação com azeite a ferver... Infelizmente, praticamente todos os anos surgem, nos meios de comunicação, notícias de mortes provocadas por cogumelos e, nalguns casos as pessoas dizem-se ser perfeitos conhecedores do assunto!... Isto vem mostrar que quem não os conhece bem, não deve arriscar; e mesmo quem pense ser bom conhecedor deve ter certos cuidados!...

     No outono, após alguns dias de chuva, principalmente com temperatura e humidade quase constantes, aparecem os "gasalhos". No entanto, deixam de nascer logo que arrefece demasiado e aparecem as primeiras geadas... Nos pinhais, surgem as "pinheiras" (entre outros tantos venenosos, pelo que muito pouca gente os sabe distinguir).


Dois gasalhos

Outros três, à espera de ser arranjados...

Estes ainda cresciam mais...

     Na primavera, quando os dias começam a aquecer, aparecem os "tortulhos" (no meio do mato, em locais mais soalheiros, virados a nascente), que quase sempre são apanhados debaixo da terra, (posteriormente, saem e abrem, mas deterioram-se bastante e secam. Até se costumava dizer-se que "se cantar o cuco, já não prestam"!). Ao lado dos caminhos, apareciam também outras pequenas "bolas ou batatas", que eram designadas de "reigotas", muito raras mas saborosas. Estas duas variedades, para não enganar, devem ter um cheiro característico: a terra...

     O aspecto do cogumelo é também muito importante: deve ter sempre a parte inferior muito limpa (se aberto) e não ter vestígios de insectos. Na sua preparação, deve-se retirar suavemente a pele, raspá-lo e usar-se pouca ou nenhuma água, pois oxida facilmente.

Já partidos, prontos a confeccionar...

     Tradicionalmente eram comidos de diversas maneiras, ainda hoje apreciadas: cortados às lascas e depois cozidos em arroz, guisados ou mexidos com ovo, assados na brasa (inteiros, com uma pitada de sal e um fio de azeite), etc...

Estes estão feitos com ovo...

     Podem juntar-se facilmente a qualquer ingrediente, pelo que apareceram agora muitas outras formas de preparação, tais como:

- Sopa rica de cogumelos;
- Estufado de cogumelos, entremeada e legumes;
- Lasanha de cogumelos;
- Quiche de cogumelos;
- Frango recheado com cogumelos;
- Salada de cogumelos;
- Torta com cogumelos;
- Strogonoff com cogumelos;
- Omelete com cogumelos;
- Feijoada com cogumelos;
- Pizza com cogumelos;
- Soja com cogumelos;
- Tofu com cogumelos...

... e tantas mais, conforme a imaginação de quem os queira confeccionar!...
  
BOM APETITE!
Mas CUIDADO!: se não os conhece, não arrisque!... Podem custar-lhe a vida...
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Informação adicional (oxalá nunca seja preciso): Centro de Informação Antivenenos: 808 250 143 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fazendo aguardente no alambique comunitário

     Tão normal como fazer o vinho com as uvas criadas nas nossas terras, era o fabrico de aguardente no alambique comunitário da aldeia. Apesar de ser proibido no tempo do regime político que vigorou até 1974, tal não desmotivava os nossos pais e avós... Nesses tempos, houve apenas algum cuidado em o fazer de forma mais discreta. Creio que o alambique costumava estar guardado numa das casas do meio da aldeia e aí se fazia a aguardente. Mas, depois do 25 de abril, passou a ir de casa em casa, à medida que os moradores combinavam os dias para o seu uso. (Presentemente, parece que já não é usado  que pena!...)

     Depois de feita a vindima, as uvas eram pisadas e feito o mosto, com recurso quase exclusivamente  ao peso corporal dos homens (ou mulheres), descalços ou com botas de borracha. A maior parte desse mosto servia para encher a(s) pipa(s), para vinho. Mas os restos (as peles, os escardaços/cardaços, as pevides) continuavam no local (lagar, tanque ou recipiente, etc.) onde tinham sido pisadas as uvas e aí eram conservados, a fermentar, durante mais cerca de 9 dias. Várias vezes ao dia, a mistura era mexida e se evitava que se lhe juntassem mosquitos, tapando-a com panos ou redes...

     O alambique era de cobre, normalmente fabricado pelos latoeiros que havia na zona. A parte de cima, a cabeça, era afixada com a ajuda de uma massa de farinha (de centeio) com água, para vedar o vapor. Igual massa servia para vedar a água, em volta do tubo condensador, de que se fala a seguir.

Alambique

     Depois de colocada uma certa quantidade da mistura fermentada no interior do alambique (até um pouco abaixo do fundo do gargalo), este era colocado em suportes próprios, em cima do lume, para a mistura ferver e libertar vapor. Este era obrigado a sair pelo cano/tubo comprido (condensador/serpentina), que descia do cimo da cabeça, passava por dentro de um recipiente com água fria  e escorria, já condensado e em pequena quantidade, pelo final do tubo.

     O lume que ardia e dava calor devia ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. As "torgas" (raízes de uma certa moita do campo) eram a melhor lenha para isso, pois ardiam uniformemente, durante longo período de tempo. 

     A aguardente saía quente, sendo depois guardada em garrafas e/ou garrafões, que seriam conservados bem fechados, depois de ter arrefecido. Costumava usar-se um cálice muito pequeno para provar a aguardente: se era saborosa, se não cheirava a fumo, se era forte ou fraca... Ao lançar-se um pouco dela às brasas, se ardesse rapidamente, fazendo chama, era sinal de estar forte, ainda ser boa...

     Era muito frequente os mais velhos pregarem "partidas" aos rapazes adolescentes, desafiando-os a beberem, de uma só vez (de um trago), um cálice dessa aguardente e imediatamente depois gritarem: "Ó Elvas, ó Elvas". Evidentemente que a voz fica presa! E era engraçado ver essa malta a fugir que nem uns tontos à procura de água!... Bem me lembro de também eu ter caído numa dessas "partidas"!

     A primeira aguardente retirada de cada alambicada, era por vezes aproveitada para ser usada como álcool, para as mezinhas caseiras e curativos... A restante ia sendo cada vez mais fraca, à medida que decorria a fervura da mistura. Era normal, pois, misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.

     Uma vez fiquei sozinho a fazer aguardente, enquanto os meus pais foram acabar de plantar umas couves na "Conecril". Quando eles regressaram, embora o alambique continuasse a produzir bem e eu tivesse apenas retirado 2 a 3 litros, achava que seria já o suficiente para aquela alambicada, "pois a aguardente já saía fraca, parecia-me água". No entanto, o meu pai, mais sabedor do assunto, tratou logo de verificar: provou a aguardente, lançou um pouco dela às brasas e respondeu-me: "Não está nada fraca, tem de dar ainda mais 1 a 2 litros. Ora, tu é que já bebeste muita!..."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Olhando para o céu (principalmente de noite), Eclipses, etc.

     Na nossa aldeia, durante as noites sem nuvens, principalmente no verão, na altura das desencamisadas, ou quando se permanecia bastante tempo fora de casa ao fresco, ou ainda quando se ia caminhando, um dos temas de conversa muito abordado pelos nossos antepassados era relativo ao céu (firmamento), com as suas diversas fontes de luz: estrelas, planetas, constelações, etc.

     A fraca luminosidade no meio rural (ainda mais pronunciada antigamente, sem energia eléctrica) ajuda a ver o céu (firmamento), melhor se distinguindo nele os diversos objectos luminosos.

A Via Láctea ou "Estrada de Santiago".

     Bem conhecida dos antigos era a "Estrada de Santiago": parece um rasto de inúmeros pontos pequenos, ao qual pertence a Terra e o Sistema Solar: é a nossa galáxia, ou "Via Láctea". Os antigos normalmente não sabiam isso, mas os estudantes que começavam a aprender Astronomia (na disciplina de Geografia, creio), esclareciam-nos, dando mais umas dicas... Aproveitavam também para explicar a diferença entre os diversos pontos luminosos do céu:  as estrelas (com luz cintilante), que são em muito maior quantidade que os planetas (de luz fixa).

     Falava-se também de "estrelas cadentes" (meteoritos ou meteoroides, que ao entrarem na atmosfera terrestre, se fragmentam e ardem, mas em alguns casos chegam a atingir a Terra, com alguma violência - veja-se o caso recente na Rússia, com mais de mil feridos, (próximo de Chelyabinsk), bem como outro na Sibéria, em 1908 (Tunguska). E também de cometas (astros raros, compostos de núcleo, cabeleira e cauda - esta sempre na direção oposta ao Sol), assim como dos eclipses e como se formavam. Quando se via algum ponto luminoso a passar depressa, falava-se da possibilidade de ser um avião ou um satélite, já que os últimos começaram a ser lançados, a partir do fim da década de 50 e início da de 60...


Cometa.

Estrela cadente.

   
     Existem ainda os asteroides, que são corpos rochosos e metálicos que possuem órbita definida ao redor do Sol. São semelhantes aos meteoros, porém em dimensões bem maiores, possuindo forma e tamanhos indefinidos, mas têm geralmente a dimensão de algumas centenas de quilómetros. (Já que neste ano se podem observar vários cometas e asteroides, veja o artigo de 07jan2013)


Asteroide.

     Quanto aos agrupamentos de estrelas, as chamadas constelações (atualmente são consideradas 88 pela União Astronómica Internacional), muito faladas eram a Ursa Maior (também chamada de carro, arado, caçarola) e a Ursa Menor. Explicava-se como, a partir da Ursa Maior se achava o Norte, descobrindo a Estrela Polar, a última da cauda da Ursa Menor.

     Outras constelações que todos aprendíamos a localizar no céu eram: o Orion (quadrilátero com mais 3 estrelas, muito próximas e alinhadas no seu centro - as "Três Marias") e a Cassiopeia (tem a forma dum W).

Cassiopeia e Orion.

     Eis um outro conjunto de estrelas, o "Sete-Estrelo" (também conhecido por "Sete Irmãs"), muito próximas umas das outras (hoje em dia, sabe-se que são muito mais de sete), o que confere ao conjunto um brilho grande, azulado, diferente do geral. São universalmente mais conhecidas por "Plêiades" "ou Aglomerado Estelar M45" - ver http://www.guia.heu.nom.br/pleiade.htm - e pertencem à constelação de "Touro".

O Aglomerado M45 ou "Sete-Estrelo".

O "Sete-Estrelo" ampliado por telescópio.

     Os planetas mais próximos de nós (Marte, Vénus, Mercúrio, Júpiter) são muitas vezes visíveis, embora não seja fácil identificá-los. Próximo do anoitecer e do amanhecer vê-se perfeitamente um dos planetas mais próximos de nós: Vénus, chamado de "estrela da manhã", "estrela da tarde" ou "estrela do pastor".

O planeta Vénus (e à direita, o planeta Mercúrio).

     Quanto ao satélite natural da Terra, a Lua, também havia muitas conversas em seu redor: além dos eclipses, falava-se na lenda das suas manchas: "Uma vez, andava um homem a trabalhar ao domingo apanhando silvas. Deus apareceu-lhe e perguntou porque trabalhava aos domingos. Respondeu ele que o fazia porque ninguém o via naquele canto isolado. Retorquiu o Senhor que, a partir daí, toda a gente o iria ver. E Deus colocou na Lua o homem com o molho de silvas às costas". A isso se deviam as suas manchas... Na verdade, elas são mares ou planícies de solo escuro, formados outrora pela lava que brotou dos vulcões lunares...

A Lua e suas "manchas".


As crateras da Lua, vistas com telescópio.

Uma grande cratera na Lua.

Eclipse parcial da Lua.
   
     No que diz respeito aos eclipses, os mais vistosos e atraentes são os totais do Sol! É que a Lua encobre completamente e de forma quase perfeita o Sol, deixando em seu redor uma auréola brilhante. Outros também espectaculares são os híbridos do Sol: numa parte da Terra são vistos como totais e noutras como anelares (ou anulares). Mas tanto uns como outros, são apenas presenciados em estreitas faixas ao longo da Terra, pelo que são muito raros... Seguem fotos de alguns:

Eclipse total do Sol.

Eclipse anular.

     Eis agora uma imagem da Lua, com o planeta Júpiter próximo (foto tirada em 02jan2012, dia a seguir a Quarto Crescente):


A “Super Lua Cheia" de 2013:

A fase de Lua Cheia acontece próxima do perigeu só uma vez por ano e em 2013, acontece no dia 23 de Junho. (..) Por isso, a Lua estará mais exuberante por atingir a distância mínima da Terra em fase de Lua Cheia. O disco lunar terá um tamanho aparente 14% maior e será 30% mais brilhante do que a Lua no apogeu.

Tamanhos relativos da Lua no apogeu e no perigeu.

(Transcrito do site do Observatório Astronómico de Lisboa: http://oal.ul.pt/super-lua-23-jun-2013/)

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OBS.:

1. Para quem quiser explorar um pouco mais e ver a posição das estrelas, constelações, etc., ao longo do ano, e dado que o "AstroViewer Online" deixou de funcionar, tente usar uma aplicação como as recomendadas em: 
http://www.sp-astronomia.pt/node/642

2. Eclipses - Em média, ocorrem 4 a 5 eclipses por ano, mas nem metade deles são visíveis em Portugal - (em 2018, houve 5 eclipses: 3 parciais do Sol e 2 totais da Lua). Em Portugal apenas foi visível o Total da Lua, de 27 de julho.

3. Alguns dos próximos eclipses totais/anulares do Sol (os mais espectaculares):


     - 02jul2019 (América do Sul - Argentina/Chile)
     - 14dez2020 (América do Sul - Argentina/Chile)
     - 14out2023 (Américas)
     - 12ago2026 (Europa - Pen. Ibérica, até à Gronelândia e Ártico)
     - 06fev2027 (Costa Este do Brasil)
     - 02ago2027 (desde o Índico até ao SW da Europa)
     - 26jan2028 (da Pen. Ibérica até ao Norte da América do Sul)  

- Pesquise nos temas Sol ou Lua, deste blogue. Ou saiba mais em:


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Actualizado em 24mar2018

segunda-feira, 28 de junho de 2010

As Desencamisadas (ou Desfolhadas)

     Chama-se “desencamisada” ("desfolhada", nalgumas terras) à tarefa que consiste em separar as espigas de milho (o grão propriamente dito, as também chamadas "maçarocas"), depois de secas, da sua parte exterior, que é folhosa. Esses “invólucros”, designados por “camisos”, “samarros” ou “folhos” ("folhelhos") eram (são) depois aproveitados para alimento de animais ou até para enchimento de almofadas, nas famílias mais pobres.

     As desencamisadas decorriam no verão, pelo que, muitas vezes, se aproveitava as horas de menor calor, durante a noite, depois do jantar, à luz de candeeiros ou simplesmente ao luar! Quando decorriam durante o dia, o serviço era feiro debaixo de alguma árvore ou outra sombra improvisada…

     O milho é o cereal que dá mais trabalho a cultivar. Semear, sachar, mondar, fazer leiras, regar, despontar, desfolhar, colher, transportar para a eira, desencamisar, debulhar, etc. são atividades próprias do seu cultivo! E quase todas são feitas manualmente, pelo que é justo realçar o árduo trabalho que se costuma ter com o cultivo do milho, durante a primavera/verão. Se acrescentarmos ainda todo o processo de moagem e o de feitura do pão, mais sobressai a canseira tida durante todo o ciclo deste cereal...

     A tarefa de desencamisar aparece, pois, já quase no fim desse ciclo. Mas quem não gosta(va) de se juntar ao grupo, nas desencamisadas? Mais uma vez, era altura de se manifestar o espírito de entreajuda (e de comunidade) das pessoas da nossa aldeia. Ao redor do monte de espigas, sentados em bancos ou no chão, dá-se aos braços, separando, uma a uma, as espigas dos camisos (folhos ou samarros). Os camisos são deitados para o chão e afastados gradualmente para trás, enquanto as espigas são colocadas em cestos e levadas para a eira (ou um local livre, plano), onde vão estar a secar, ao sol, por algum tempo.

     Era habitual contarem-se histórias, anedotas, etc., durante as breves horas que durava a desencamisada. Lembro-me que era habitual os rapazes (e também certas raparigas) desejarem ter a sorte de desencamisar uma ou mais espigas pretas (ou avermelhadas, também chamadas de "milho-rei"). Isso dava direito a um beijo aos/dos elementos do sexo oposto presentes!...

     Também era frequente a desencamisada acabar com a partilha de uma melancia (ou mais), algumas vezes colocada antecipadamente pelo dono, debaixo do monte de espigas, para servir de surpresa aos que deram o contributo...

     Toda a tarefa acabava por constituir também um agradável convívio, de sã camaradagem e de comunitarismo entre as pessoas da aldeia.

     Mais tarde, as espigas serão guardadas, debulhadas, etc., dependendo da utilização a dar ao respetivo grão. Era nesta altura que se costumava guardar algumas das melhores espigas (as maiores, de grão mais cheio), para servirem de semente para o ano seguinte.

     A debulha antiga era feita com moueiras (manguais), instrumentos feitos de dois pedaços de madeira (unidos por uma tira de couro), o mais curto e grosso dos quais era arremessado fortemente, de cima para baixo, sobre o cereal a malhar.  Às vezes, também se usavam os fueiros dos carros. Batiam-se, assim, as espigas, para separar o máximo de grãos dos "sabugos" ("maçarocas").

Uma moueira (mangual).

     Depois, à mão, separavam-se alguns grãos restantes. Se possível, a malha devia ser feita dentro de casa (ou numa chamada "casa de milho"), para não se perderem os grãos que saltavam.

     A última tarefa consistia em transportar os camisos para os palheiros, em carroças ou dentro de panos, para aí serem guardados, antes de virem as primeiras chuvas do outono...

     Posteriormente, no final da década de 60, apareceram as debulhadoras mecânicas, movidas por trator, fazendo o trabalho mais rapidamente e com menor esforço. (ver "À eira, colmo", de 27jan2010 e a Pág. 11 - Fotos antigas...)

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(Espero um dia acrescentar outras fotos, mesmo que sejam actuais...)

terça-feira, 27 de abril de 2010

As Flores de Esteva e as pútegas

     A esteva é um arbusto muito comum nos campos da nossa terra. Por isso, não há Valecarreirense que não a conheça, tanto mais que costuma(va) ser apanhada para aquecimento e ajuda na cozedura dos alimentos (lareiras),  fazer estrume dos currais ou adubar certas terras, fazer de vassoura para varrer os fornos, etc...

     Na primavera, acompanhando os dias que começam a aquecer, os matos enchem-se das mais variadas cores (além do verde, em geral, amarelo das carquejas e tojos, violeta do rosmaninho, etc.), mas com muitos "pontos" brancos, devido à grande quantidade de flores de esteva. Cada uma delas produz normalmente uma apreciável quantidade de flores, as quais vão abrindo aos poucos, em dias sucessivos. Cada flor permanece aberta por pouco tempo, depois murcha. Há casos em que duram apenas cerca de um dia, se o calor apertar! Noutros casos, fecham à noite e reabrem no dia seguinte...

     Em miúdos, costumávamos brincar com as "pitorras" ou "carrapitos" (que resultam da infrutescência da flor), pondo-as a girar velozmente com os dedos da mão, ao desafio!...

     Mas o que mais me fascina (e creio que também se passou com alguns dos nossos antepassados) é o facto de a flor apresentar em cada pétala uma mancha avermelhada, cor de sangue, por isso se costumava dizer que eram as “chagas de Cristo”. Há plantas em que as pétalas são todas brancas, sem “chagas”. Quando assim era, dizia-se que eram de Nossa Senhora, creio... Nalgumas terras, eram designadas "albinas". O mais vulgar é a flor ter cinco pétalas (portanto cinco “chagas”), mas também as há com maior número. Lembro-me de ter visto antigamente até 8 ou 9 “chagas”, pelo menos… Numa procura rápida recente apenas encontrei até 7. E parece-me que não há com menos de cinco (ou eventualmente 4?)...

     Aqui apresento exemplos de cada situação. Se alguém encontrar outros exemplares diferentes, agradeço que me envie fotos, sim?




Exemplos sem chagas:


     Como informação adicional, sobretudo para os mais novos: muitas vezes associadas às estevas, pois nascem junto às suas raízes, aparecem as pútegas, que começam por ser vermelhas e vão-se tornando amarelas e depois acastanhadas, à medida que amadurecem. Embora tenham casca muito azeda, produzem uma espécie de arroz-doce, muito apreciado por nós, miúdos de outros tempos...
    
     Parece que já vão sendo muito raras, devido ao abandono do cultivo dos campos! A seguir apresento um putegueiro, no estado inicial de crescimento e, depois, outro com as pútegas já maduras e as mesmas depois de arrancadas:

 
Pútegas no estado inicial de maturação. - (Agradeço a foto ao Jorge Alves)


Pútegas já maduras e depois de arrancadas...

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Última actualização: 01mai2017