quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Noutros tempos (3)

9 - O almofariz. As papas de linhaça e outras mezinhas caseiras:

Quem não sabe o que é um almofariz? Antigamente, na aldeia havia um, que pertencia a todas as famílias (em regime comunitário, à semelhança do que acontecia com outros bens, nomeadamente o alambique, o búzio, a eira, o(s) forno(s), etc.)...

Almofariz...

Utensílio feito de bronze (creio), era bastante pesado, sobretudo quando, ainda pequenos, lhe tentávamos pegar! Actualmente, há quem possua instrumentos parecidos (até de porcelana ou madeira), mas os mesmos servem mais para pisar ervas aromáticas e outros condimentos para a cozinha!

Mas antigamente não era assim: o almofariz era quase um objecto sagrado e o seu uso denotava que havia alguma maleita por perto... Esse utensílio era imprescindível para moer ervas, sementes ou grãos que se usavam nas mezinhas caseiras... A utilização mais comum era para pisar/moer sementes de linhaça e, assim, obter as "papas de linhaça", que eram usadas para combater diversos males, principalmente os ligados à parte respiratória. Usava-se uma cataplasma sobre o peito...


Sementes de linhaça.

Sabe-se, hoje, que são imensos os benefícios da linhaça: rejuvenescimento, vitalidade física, diminuição de peso, combate anemia,  acne e cancro (mama, próstata, cólon, pulmões, etc.), auxilia no equilíbrio hormonal (distúrbios associados à menstruação e menopausa), auxilia o sistema cardiovascular (diminuição do risco de arteriosclerose e redução do mau colesterol - LDL), auxilia no controlo da diabetes (glicemia), beneficia o sistema digestivo (e funcionamento dos intestinos), o sistema nervoso, o sistema imunológico (e doenças inflamatórias), combate a agressividade e a obesidade, produz benefícios na pele e no cabelo…

Lembrei-me agora de mais umas mezinhas do tempo dos nossos pais e avós, a saber:

- Água de malvas para lavar/desinfectar feridas, etc.;
- Mistura de azeite e vinagre (para feridas, ulcerações e inflamações);
- Folha de couve untada com banha (no pescoço para curar a papeira);
- Fel para tirar farpas das mãos ou pés;
- Panos de água quente;
- Chás de: erva de S. Roberto, erva cidreira, barbas de milho, flor de tília, flor de carqueja, folha de oliveira, laranjeira, etc;
- "Pomada" caseira para os calos;
- Folhas de eucalipto (queimadas ou simplesmente ao ar);
- Bochechar aguardente para aliviar dores de dentes;
- Embebedar-se com aguardente para suportar mordeduras de escorpião;
- Passar água fria pela testa para estancar hemorragias do nariz;

(... se souber de mais alguma, pode ajudar-me...)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Feira da Tigelada - 2012



Vistas do nosso "stand".

Realizou-se, no passado fim de semana (dias 28 e 29jul), mais uma Feira da Tigelada, em Proença. A LAVRAR - Liga dos Amigos do Vale da Carreira participou, com o empenho das já habituais pessoas residentes na aldeia, a quem cabe manifestar os nossos agradecimentos...  

No site do Município (www.cm-proencanova.pt), foi publicada notícia com o título "Teatro e história na Feira da Tigelada", da qual transcrevemos uns excertos:

"Realizada no Mercado Municipal, a Feira da Tigelada contou com a adesão das associações e mostrou as diferentes receitas e variações com o doce mais típico do concelho."

"Para assinalar os 500 anos da atribuição do foral manuelino à Vila Melhorada, o grupo de teatro Váatão recriou figuras quinhentistas no recinto da feira, terminando a animação com uma leitura adaptada do foral."  

Figuras quinhentistas passeando-se...

"Além da animação de época, para recordar o foral manuelino foi distribuída uma brochura com a transcrição dos dois forais atribuídos a Proença, com um enquadramento histórico feito pelo professor António Manuel Silva."

"Seguiu-se a apresentação de um livro sobre o ciclo do linho, da autoria de Manuel Lopes Marcelo." "No livro “Bailado de sonho – As voltas do linho”, são transcritas as músicas e letras de 15 cantigas relacionadas com o linho. Cinco delas foram interpretadas por elementos do Rancho Folclórico de Aranhas, no concelho de Penamacor, terra natal de Lopes Marcelo. Lembrando a importância que a temática do linho tem na nossa região, o presidente da Câmara, João Paulo Catarino, elogiou o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo autor, “defensor das nossas raízes”."

A animação contou ainda com "karaoke, com o microfone aberto a todos os que quiseram contribuir para a diversão e soltar a música."

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NB: As fotos acima são do Jorge Alves (Tesoureiro da LAVRAR). Obrigado, primo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Noutros tempos... (2)

5 - As tulhas e o lagar:

A azeitona, depois de apanhada e já limpa das folhas, era transportada para próximo dos lagares. Havia dois lagares: o de Cima, junto ao cruzamento da Bairrada/Pracana/Carvoeiro (M537), e o do Baixo, depois (abaixo) do Mesão Frio. Aí, cada família possuía uma tulha onde a azeitona era depositada, aguardando que chegasse a sua vez de ser moída. Neste espaço de tempo, que podia ser de várias semanas, aí era conservada, compactada.

Cada tulha tinha uma largura que variava de cerca de metro e meio até 4 ou 5 metros. Era construída em pedra comum da zona (xisto) e, às vezes, revestida de cimento. No fundo, possuía um pequeno buraco por onde escorria alguma "albufeira", que se formava pelo facto da azeitona estar apertada...

Tulhas do Lagar de Cima (entre o Vale da Carreira e o Mesão Frio)
Créditos de Museu Nacional de Etnologia e Benjamim Pereira


Tulhas do Lagar de Baixo - Mesão Frio, algumas ao abandono
 (foto de Gracinda Tavares Dias)

As sacas eram despejadas uma a uma e, com o auxílio dos pés e dum maço de madeira, era bem calcada. No final, colocavam-se por cima algumas pedras grandes (por vezes em cima de ceiras).

Quando chegava a altura de ser moída, retiravam-se as pedras. Depois enchiam-se cestos e levava-se a azeitona para um local próximo do pio/galgas, onde era gradualmente despejada. Nalguns lagares isso era feito para uma área superior do lagar. Daí saía uma rampa própria, por onde escorria a azeitona, à medida que o lagareiro o desejava...


O pio com as galgas, à espera da próxima moagem... 
(foto do blogue de Gracinda Tavares Dias)

No interior do lagar, o lagareiro e seu(s) ajudante(s) executam uma série de tarefas, das quais salientamos: moer (lançar a azeitona no pio, onde as galgas rodam e a calcam); enceirar (colocar a massa/pasta resultante dentro das ceiras); prensar (apertar/espremer hidraulicamente as ceiras empilhadas no vagão); vigiar o azeite que vai saindo da prensa para as talhas/tarefas (adicionando água quente da caldeira sobre as ceiras na prensa e ir purgando para retirar a albufeira, etc.).






Depois de descido o vagão da prensa, há que desenceirar, isto é, retirar o bagaço das ceiras que foram apertadas. Esse bagaço servia para alimento dos porcos (ver abaixo, sobre a vianda)...

Como últimas tarefas, temos a medição do azeite, verificar a sua acidez e, por fim, fazer a maquia (retirar algum azeite para ficar em posse do lagar, como pagamento do trabalho efectuado)...


 
   


6 - A vianda dos porcos:

Creio que todos conhecerão a palavra vianda, que significa a comida para os porcos preparada com restos das refeições das pessoas, podendo ser adicionados outros ingredientes. Na nossa terra, os porcos eram alimentados com esses restos aos quais, muitas vezes, se adicionava farinha, para a mistura ficar mais forte...


Além destes restos, os porcos eram também alimentados com abóboras, chilas, beterrabas, batatas (completas ou só as cascas), couves e outras hortaliças. E, enquanto havia, bagaço de azeitona. Este bagaço era trazido do lagar para junto de casa.  Era despejado numa tulha, onde era calcado para se conservar até ir servindo para adicionar nas viandas. 


No final do Verão, os figos das figueiras faziam as delícias dos animais... No princípio do Inverno, eram ainda alimentados com landes e bolotas varejadas dos sobreiros e azinheiras, mas como estas árvores começaram a escassear, há muito isso caiu em desuso... 

7 - Vinho, vinagre, jeropiga e aguardente:

Tanto quanto me parece (ou me lembro, de pequeno), antes da década de 1970, não era comum que em cada família da nossa aldeia se fizessem vinho, vinagre, aguardente ou jeropiga. Não havia essa "cultura do vinho", isto é, quase ninguém cultivava videiras em quantidade suficiente, nem o regime político existente (ditadura) o facilitava/incentivava. Pelo contrário, havia até uma perseguição à feitura caseira dessas bebidas...

Mas, depois do 25 de abril, tudo mudou: começaram a plantar-se videiras em praticamente todas as hortas. Nalguma divisão da casa ou anexo, quase todos arranjavam uma pequena adega, onde ficava um ou mais pipos (normalmente eram de madeira). Construíram também locais próprios para pisar as uvas: lagares. À medida que era feita a pisa, o mosto era retirado para os pipos. E aí era feita a fermentação do resto do mosto com as cascas e grainhas (bagulho), durante cerca de 9 dias e, depois, fazia-se a aguardente, no alambique comunitário (ver artigo de out2010).

Uns dias antes da apanha das uvas, o(s) pipo(s) era(m) posto(s) na rua, e a madeira era forçada a inchar, com água abundante, até estar bem vedado e poder receber o mosto.

O mosto da pisa das uvas era posto a fermentar nos pipos, adicionando-se um pouco de aguardente. Durante cerca de 2 a 3 meses, aí ficava a fermentar até "desdobrar", isto é, o mosto deixava de ser adocicado e se transformava em vinho. Havia quem lhe juntasse um pouco de fruta (maçã, amoras..), na parte final, para dar aroma...

Por vezes, acontecia que o mosto não desdobrava mas azedava: em vez de vinho, fazia vinagre. Era uma chatice (!), mas sempre se conseguia vender ou dar algum aos vizinhos, que quase sempre ficavam satisfeitos por não necessitarem de o comprar nas mercearias...

Na nossa casa (e em muitas outras), à saída da pisa, era costume a mãe fazer jeropiga. Numa garrafa quase cheia de mosto era adicionada alguma aguardente (mais ou menos na proporção de 3 para 1) e, se o mosto não for muito doce, um pouco de açúcar... Pouco tempo depois (cerca de um mês), essa bebida podia ser consumida, principalmente para aquecer as gargantas, nas manhãs frias de outono...

8 - Uvas e marmelos dependurados pela casa:

Era costume, nas nossas casas, conservar uvas durante mais uns meses, após a vindima, dependurando-as nos tectos das lojas ou salas (quanto mais fresca a divisão, melhor). Também se fazia o mesmo com os marmelos. (...)

(Nota: maior desenvolvimento deste assunto em artigo de 26jun2013)


9 - Arado, charrua e grade:

Toda a gente sabe o que é um arado e para que serve. No entanto, nem todos (principalmente os mais novos) tiveram a possibilidade de observar os tipos de arado usados na nossa aldeia.

Como os solos das nossas terras contêm geralmente uma pequena camada arável, os arados/charruas eram muito simples, quando comparados com outras zonas do país. Possuíam apenas um espigão ou bico (relha) e uma cauda (rabiça), que o lavrador segura pela mão. À frente, para ajudar a deslizar no solo, uma pequena roda. Os mais antigos eram totalmente de madeira, sem roda, claro. (Ainda me lembro deles). Depois surgiram os de metal/ferro. Nestes, a relha (parte afiada que rasga a terra) era aparafusada e substituída quando ficava muito desgastada ou se se partia, o que às vezes acontecia devido a alguma rocha ou até raiz de árvore mais firmes...

Depois de lavradas as terras das hortas, para ajudar a apanhar restos de ervas ou para desfazer as irregularidades deixadas (cômaros), passava-se com uma grade por cima. A grade podia também ser de ferro ou madeira, tinha pequenos dentes e era usada tanto com os dentes virados para baixo ou para cima, consoante o estado do terreno que se queria "agradar" (gradar)...

Para aumentar o peso do utensílio, usava-se às vezes pedras ou lajes por cima, principalmente se era de madeira, mais leve. Ou, então, o peso de quem andava a lavrar, guiando o animal com as rédeas viradas para trás, mais compridas...

domingo, 27 de maio de 2012

Noutros tempos... (1)

Hoje, vou aqui começar este tema, de forma abrangente, reunindo uma série de actividades mais ou menos antigas... (Reparem que já me sinto na dúvida se hei-de passar a usar o NAO - Novo Acordo Ortográfico! Na dúvida, e dada a polémica que se tem levantado sobre o mesmo, creio que, a partir de agora, não o vou usar: é curioso que até a própria sigla me parece ajudar!!! Que acham?).

Mas, como dizia, vou reunir aqui, para ir actualizando, uma série de actividades e tradições típicas da vida quotidiana das gentes da nossa aldeia e que estão a passar à história, ou seja, foram total ou parcialmente abandonadas, mas que mostram o carácter e a vivência dos nossos antepassados. Neste caso, relato aquilo de que me lembro; portanto, desde o final dos anos 50... Já agora, se me quiserem fornecer mais dados, aceito-os, agradecido, pois de muita coisa me vou esquecer nos assuntos a tratar.

(Nota: Vou escrever um pouco cada dia, para me poder ir lembrando do máximo de detalhes... E esperar por vós, pela vossa participação - contacto por e-mail, comentários, etc.!!!)

Eis, então:

1 - A salgadeira:


(Ver também o artigo sobre a matança do porco:
http://vale-da-carreira.blogspot.com/2010/03/matanca-do-porco.html)

O animal mais criado para o fornecimento de carne era o porco. Porque não havia electricidade na nossa aldeia, as carnes de porco que não se consumiam no imediato eram salgadas, em sal grosso, e colocadas em camadas nas salgadeiras.

Eram de madeira e tinham pés ou ficavam apoiadas em paus, para que não ficassem assentes no chão e, assim, permitir que algum do líquido (salmoura) que escorresse não fizesse apodrecer a madeira. E assim, ao longo de todo o ano, à medida que era necessário, se retirava do sal as peças de carne conservada.

É claro que, com o tempo, alguma carne sempre ganhava algum ranço (ou arranço), ficando amarelada... Sobretudo se o sal se derretia à sua volta e se não fosse vigiada...

Cabeça, patas e mãos costumavam ser colocadas no fundo. Depois, bandas de toucinho, costelas e lombos ou lombinhos. Os presuntos e chispes também lá ficavam, mas apenas durante cerca de 2 a 3 meses, sendo, depois, retirados e colocados ao ar, depois de envoltos numa capa especial de pimentão, etc. Mais tarde, depois de terem sido fumados, havia quem colocasse na salgadeira também os enchidos.

As excepções à salgadeira, além do fumeiro, eram: a conservação em azeite de enchidos saídos do fumeiro, dentro de talhas de barro; febras ou costeletas em banha derretida...

2 - A talha das azeitonas:

Quase tão fundamental como ter pão, era ter azeitonas o ano inteiro. Dizia-se que desde que houvesse pão e azeitonas já não se passava fome! Uma mesa onde não houvesse azeitonas não estava "bem composta"...

Após a apanha da azeitona, a grande maioria desta era destinada à produção do azeite, nos lagares. No entanto, alguma era seleccionada para ser comida. Se se pretendia logo para as semanas seguintes, era retalhada (com uns golpes), às vezes passada por água a ferver e, de seguida, metida em água que se mudava frequentemente. Antes de ser comida, adicionava-se-lhe uns grãos de sal...

Uma maior quantidade de azeitona destinada ao consumo era colocada dentro duma talha com água. Assim ficava, simplesmente de molho, durante cerca de um mês. Depois, era lavada (retirada alguma mole ou podre) e regressava à talha. Adicionava-se-lhe, então, o sal (farpão, limão...) e assim se conservava para o resto do ano... 

Normalmente essa talha era muito grande (as famílias também costumavam ser grandes e o ano é longo!) e (lembro-me bem) era uma trabalheira levar essa talha para a rua, onde se costumava mais facilmente proceder à operação de mudar a água da azeitona!

3 - O fumeiro: enchidos e o paio "nascediço":

Após a matança do(s) porco(s), era tradição, no mesmo dia, serem feitos os primeiros enchidos (ou chouriças, termo genérico para os enchidos): as morcelas. É fácil perceber porquê: a carne ensanguentada e o sangue usado era mais facilmente deteriorável. Por outro lado, as morcelas não precisavam de ficar a ganhar sabor, como as outras carnes que eram temperadas, com sal e outros condimentos, e ficavam vários dias a apurar/marinar...

As morcelas, depois de feitas, levavam uma fervura de alguns minutos, eram postas a escorrer/arrefecer e logo colocadas no fumeiro. Por isso, as morcelas, após terem sido esquentadas, ficavam prontas a poder ser comidas. Muitas das vezes, no dia da matança ou no seguinte, era hábito comer couves com carne (cozido próprio onde entrava obrigatoriamente  a morcela nova, os bofes, etc.) 

À medida que se desmanchava o animal, eram separadas as diversas carnes que iriam servir para os restantes enchidos. (Ver ainda o artigo da matança do porco - 22mar2010) - Nos dias seguintes, eram feitos os restantes enchidos: magras, mouras, bucho, bexiga, rosqueiros, paios e, por fim, as farinheiras.

Quando o fumeiro estava completo, dava gosto olhar para aquela quantidade enorme de "chouriças". Era normal as farinheiras serem em maior número, as que levavam menos carne (juntamente com farinha, ficando, assim, mais baratas). Eram, pois, o enchido que mais frequentemente acompanhava as comidas ao longo do ano. Alguns enchidos, como os paios, ficavam restringidos a ser comidos em ocasiões mais especiais, visto que eram relativamente poucos, pois eram feitos das tripas grossas do porco - intestino grosso - que não dava para muitos!...

De entre os paios, havia um, enorme e grosso, a que era dado o nome de "nascediço" ou "nacediço"! A malta costumava brincar com esse nome, por se confundir com "não se disse": - "Como é que se chama aquele paio?" - "Nacediço!" - "Então porque é que estás a dizer?"

4 - As arcas dos cereais:

Tal como as salgadeiras, eram de madeira e muitas vezes afastadas do contacto directo com o chão, para não absorverem a humidade (no inverno). O trigo, centeio e milho, depois de trazidos das eiras, eram para aqui despejados e se conservavam ao longo do ano. Paralelamente, havia por vezes também arcas para a farinha dos mesmos cereais: depois de moídos, a farinha era trazida em taleigos e para aí despejada, onde se conservava até ao seu consumo...

Havia muito o hábito de esconder ou conservar algumas frutas e pão no meio dos cereais!... Talvez para desviar a atenção dos ratos, mas era frequente estes abrirem buracos nas arcas, sobretudo nas partes mais escondidas, sem serem detectados e por aí entrarem e fazerem o seu roubo!

Convém lembrar que, nas casas rurais, os ratos sempre foram um grande problema, tentando apoderar-se dos bens dos proprietários. Por isso, não havia família que não possuísse pelo menos um gato ou gata. Além disso, estes animais eram (e são) uma protecção contra alguns insectos e répteis... (Ao contrário, os cães eram muito pouco habituais na nossa aldeia...)

sábado, 14 de abril de 2012

O pontão

O pontão era um dos lugares muito típicos da nossa aldeia, principalmente antigamente. Por baixo dele passa a barroca da Corga. Com muros dum e doutro lado da estrada, na curva mais apertada da aldeia, era aí que muitas vezes o pessoal, principalmente os mais novos, se juntava para conversar e conviver.

O pontão.

Fosse apenas para observar a água que corria veloz por baixo, quando havia maiores enchentes, ou para apanhar sol, conversar ou ajudar a passar o tempo, encostávamos-nos ao muro, ou sentávamos-nos encima...

Às vezes, alguns dos rapazes mais destemidos mostravam as suas habilidades, quer andando por cima dos muros ou passando duma ponta à outra, apoiados nos braços por cima e com as pontas dos pés num estreito friso da parte de trás deles... Era um desafio perigoso, mas não me lembro de alguém ter tido azar! 


Outras perspectivas do pontão.

Vou referir aqui ainda outros acontecimentos passados junto ao pontão, que recordo como se fossem de agora.

Ali se ouviram muitas histórias da guerra nas ex-colónias ("do ultramar", como o regime lhe chamava). Nomeadamente, o Aníbal e o António ("Lavradores"), bem como o Manuel Alves. Os que os ouviam ficavam impressionados com os relatos, grande parte das vezes horríveis, mas mesmo assim não arredavam pé e assim se entrava, às vezes, pela noite dentro com muita atenção ao que era contado...

Era ali que os rapazes mais novos iniciavam e terminavam corridas ao desafio, organizadas pelo Sr. Bonifácio, quando este vinha de Lisboa para a nossa aldeia, a fim de passar uns dias de férias ou descanso... Os vencedores de cada corrida recebiam dele alguns tostões! Eu, por ser mais novo ou mais lento, normalmente não me safava!... Depois, quase sempre lá se ia ao Mesão frio trocar os tostões por rebuçados e sempre me tocava algum...

 Uma vez, num Domingo à tarde (por volta de 1980), enquanto havia muita gente por ali, começou a ouvir-se o barulho dum automóvel, que vinha de baixo, a grande velocidade! Ao tentar fazer a curva, derrapou e despistou-se, embatendo num monte de lenha que estava na ribanceira, tendo ainda sido detido pelas rodas presas num tronco de árvore (creio que de eucalipto) que estava estendido na berma da estrada. De dentro do carro saíram apressadamente os ocupantes, um dos quais com a cabeça a sangrar. Pensou-se que se tinha magoado no acidente, mas veio a constatar-se, depois, que afinal já vinha ferido, por ter caído na ribeira do Freixoeiro e estava a ser levado para o Hospital de Proença... Daí a grande velocidade a que seguiam... Do despiste não resultou grande coisa, o carro foi puxado para a estrada e lá seguiram apressadamente o seu caminho, com o amigo ferido... Mas foi cá um susto para todos!...

Hoje, o pontão está mais bonito: pintado e com reflectores  Não me consta que tenha havido por aqui grandes "aceleras", mas, pelo sim, pelo não, e dado que são vários os perigos dentro da aldeia, vamos solicitar que a Câmara se digne colocar sinalização que limite a velocidade dentro da aldeia, digamos para os 30 ou 40 km/h.

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Se alguém se lembrar de mais histórias aqui passadas, que diga... ou que corrija alguma informação prestada.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Para meditar: Natal de quem?

Não resisti a copiar esta poesia que vi no Facebook. É para se meditar, hoje que é Dia de Natal e em tempo de crise (qual crise?!)...

"NATAL DE QUEM?

Mulheres atarefadas 
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.
- Não esqueças o colorau!
O azeite e o bolo-rei!
- Está bem, eu sei!
- E as garrafas de vinho?
- Já vão a caminho!
- Oh mãe, estou pra ver 
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?
- Não sei, não sei...
Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!
Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu, 
Toda a gente Me esqueceu?
Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive teto nem afeto!
Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:
- Foi este o Natal de Jesus?!!!"

(João Coelho dos Santos in “Lágrima do Mar” - 1996)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Parabéns pelos 90 anos, Tia Conceição!

A Tia Conceição, a segunda valecarreirense mais idosa ainda viva, acabou de completar os 90 anos! Aqui vão os nossos parabéns. Desejamos que continue a somar anos e anos, com saúde e na presença de todos os seus...

O texto que segue é da autoria do seu filho Fernando, a quem agradeço:

"A Tia Conceição (Mendes/Alves) completou, no passado dia 14 de Dezembro, noventa anos de idade. Os seus filhos, netos e bisneto não quiseram deixar passar a data em branco e no dia 17 seguinte fizeram uma festa convívio no Vale da Carreira. Foi um dia muito especial de agradecimento a Deus pelo dom da vida e de grande confraternização. A única irmã viva da Tia Conceição (Tia Rosário do Vergão) esteve, igualmente, presente, para grande alegria de todos. A Tia Lurdes Alves (cunhada), residente no Vale da Carreira, também se associou aos sobrinhos, no acontecimento de grande significado familiar. Desejamos à aniversariante as maiores felicidades e que continue, por mais anos, a acompanhar a numerosa família que gerou com o seu falecido e inesquecível marido Francisco Alves."

Para recordar, seguem 2 fotos alusivas à efeméride...

A aniversariante.

A Tia Conceição, a Tia Lurdes e a Tia Rosário a "petiscar"...


Ah, agora permitam que diga mais alguma coisa: Tia, gostamos sempre de a ouvir a construir belas frases em verso, o que muito nos surpreende. Para rivalizar consigo, aqui vai:

Muitos parabéns, querida tia
Aqui deixo à minha maneira
A você que é a melhor poeta
Do belo Vale da Carreira.

Tia, nunca a vou esquecer
Foi sempre p´ra mim uma mãe
É das pessoas mais amigas
Que a nossa família tem.

O objetivo agora
É chegar à centena;
Com saúde e alegria
Assim vale a pena!...


Beijos e até breve...
Zé Luís

-/-/-/-/-


Editado em mar2015: Infelizmente, a Tia Conceição acabou de partir, aos 93 anos... Era a mais idosa de todos os valecarreirenses. Que descanse em paz!...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ande o frio por onde andar...

Lembrei-me hoje de escrever sobre o ditado popular (provérbio) muito conhecido "Ande o frio por onde andar, pelo Natal cá vem parar".

Uma das razões que me levaram a escrever sobre isto tem a ver com o tempo relativamente ameno que temos tido desde o final do verão. De facto, tivemos setembro e a primeira parte de outubro com tempo seco e temperaturas bem acima do normal. Depois choveu bastante, no final de outubro. E mais recentemente, a chuva voltou a afastar-se: desde 22nov até 09dez não choveu; depois choveu pouco de 10 a 16dez...

Assim, o tempo frio quase ainda não apareceu. Nas regiões do litoral ou próximo, ainda as temperaturas não baixaram dos 6 a 8 graus e, no interior, apenas em alguns pontos mais altos e no interior das Beiras e Trás-os-Montes, a temperatura já foi negativa... É normal, em quase todos os anos, por esta altura em minha casa já se ter acendido a lareira, mas este ano ainda não foi preciso!...

Sabe-se que a natureza (plantas, animais...) agem em função dos valores do tempo/clima. Com este tempo ameno e incaracterístico, algumas árvores, plantas, vegetação rasteira, etc. ficaram "baralhadas": foi como se estivessem já na primavera! Vejam aqui umas fotos, tiradas entre os dias 22dez e 22jan, em Massamá:

 
 Uma figueira, que já há semanas começou a ganhar folhas e figos!...

Uma acácia pujante, quase a florir...

Laranjeiras em flor...

 Alecrim em flor e ervas em crescimento, sem sinais de frio...

Ervas e arbustos floridos por todo o lado...

Mas este tempo ameno não vai continuar, pois, como diz o ditado a que se faz referência, vem aí um maior arrefecimento, pelo que as temperaturas vão descer, o frio acentuar-se. Com ele, aumentarão as geadas e o gelo (pela madrugada).

Agasalhe-se, pois. E cuidado com o piso escorregadio!... Veja as previsões, usando as ligações na barra do lado direito do blogue...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A sesta

Dormir a sesta toda a gente sabe o que é. Mas esse hábito de "passar pelas brasas", depois do almoço, era antigamente muito mais frequente do que agora.

Na nossa aldeia (e em toda a região, aliás como acontece no interior de quase toda a Península Ibérica e mesmo em muitos outros países), era quase um ritual sagrado: tinha de se dormir a sesta, depois do almoço, no período do verão. Servia tanto para recuperar de noites mal dormidas (devido ao calor sentido dentro de casa, pois não havia aparelhos de ar-condicionado ou ventoinhas, como agora), como pelo facto das pessoas se levantarem normalmente cedo (para trabalhar nas horas mais frescas). Por isso, as pessoas sentiam necessidade de dormir a sesta.

Não só os pais dormiam a sesta, mas também os filhos... Alguns chegavam a fugir de casa, sorrateiramente, e ir "para o pulo", em vez de descansar...

A sesta começava mal chegava o calor do Verão (às vezes logo em Maio, mas principalmente a partir do princípio de Junho). O final do período de sesta coincidia com a Feira de Setembro, na Sobreira Formosa (dia 8). Lembro-me do meu pai dizer muitas vezes que esse era o último dia de sesta, pois os nossos antepassados seguiam à risca essa tradição!

Antigamente, era hábito dormir-se/descansar-se durante 1 hora ou mais, depois do almoço. Há quem opine, hoje em dia, que a duração da sesta não deve exceder os 20/30 minutos. Mas é meu entender que isso apenas se aplica a quem não passa pelos rigores do verão, como acontece por estas bandas...

Para complemento deste assunto, recomendo que visite a ligação seguinte, em castelhano, com o título (traduzido) "A sesta, um prazer recomendado que pode ser contraproducente se se prolonga demasiado":


Depois de ler esse excerto, pode visitar também outras partes do artigo... (Se não as acha, use a ligação anterior e substitua apenas o número 4 por 1, 2 ou 3)

Agora, talvez concorde que é bom recuperar ou, pelo menos, não deixar acabar os bons hábitos, como este de dormir a sesta...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A primeira TV na aldeia

Deve ter sido em 1976... Estava eu na tropa, em Tancos, mais o Zé Joaquim e fomos um dia a uma loja de eletrodomésticos, em Vila Nova de Ourém (onde havia venda de material barato, que se dizia ser "de contrabando"). Aí adquiri um rádio/leitor para o carro ("Mini Clubman"), que tinha comprado há pouco, e uma televisão.

A TV era pequena e funcionava a bateria, pois ainda não havia eletricidade no Vale da Carreira... Quando a carga da bateria acabava, lá tinha eu de ir a Proença recarregar a bateria (numa oficina), durante umas horas; às vezes ficava lá de um dia para o outro.

Comprei também a antena exterior (muito grande e pesada), que me deu um trabalhão a fixar na parede da casa. Por ser no vale, nunca captou muito bem o sinal... Lembro-me de, antes de a fixar num tubo ao alto, a deixei uns tempos em cima do telhado, à experiência... Mas, por azar, veio um dia de vento forte, que a derrubou e quase danificou. Ainda por cima, eu não estava por lá; só voltei passados uns dias... Ia-se estragando todo o equipamento!

Nos anos seguintes, começaram a aparecer outras TV's na aldeia... Depois, com a eletricidade, todas as famílias passaram a possuir, à medida que se foi generalizado o seu uso em toda a sociedade. Quem consegue hoje passar sem ter alguma dessas "caixas mágicas"?!...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Agradecimento muito pessoal (e especial)

Era o final do mês de Junho de 1955. Tinha eu cerca de dois meses de idade...

Numa das nossas hortas da Conecril, junto à estrada, a minha mãe tirava água à picota para regar o milho... O meu irmão António andava a regar... Eu dormia, deitado num cesto, a alguns metros do poço... Quando o poço estava quase sem água, o imprevisto aconteceu: o poço desmoronou-se; a terra em volta abateu/deslizou e o cesto, comigo dentro, foi juntamente com a terra para dentro do poço...

A minha mãe gritou, o mesmo fazendo o meu irmão! Na horta ao lado, a Ti Nati (Natividade) e o filho Raul começaram também a gritar, pedindo por socorro... Na eira, os homens malhavam centeio ou trigo e, ao ouvirem o pedido, correram em direção à Conecril.

Entretanto, ao passar de bicicleta, o Ti "Zé Pedreiro" (que mora no Serimógão - entretanto, falecido em 06jul2018) correu para a horta, atirou-se para dentro do poço, começou a remover terra e pedras e lá me encontrou debaixo do cesto...

Lavaram-me no ribeiro ao lado, onde ainda havia algumas poças de água...

Entretanto, apareceu a camioneta de carreira – que esperou por nós, enquanto a minha mãe foi a correr a casa mudar de roupa! – fui levado para Proença onde fui observado por um médico (penso que o Dr. Paisana). Depois, por precaução, mandaram-me fazer uns exames no Hospital de Castelo Branco... Concluíram que não era nada de especial, apenas umas pequenas mazelas (ainda agora se nota uns pequenos defeitos na minha cabeça, por cima da orelha direita)... Enfim, tive muita sorte em ter sido socorrido com rapidez, e ter ficado debaixo do cesto, com algum ar para respirar!...

Aqui e agora, lembrei-me de escrever este artigo para agradecer a todos os que contribuíram para que eu tivesse sobrevivido. Foram muitos, alguns já falecidos. Mas este agradecimento é especialmente dirigido aos que ainda estão vivos, nomeadamente ao Ti "Zé Pedreiro" (José Dias, curiosamente tem o mesmo nome do meu pai, por isso às vezes digo que foi/é o meu segundo pai...), ao meu irmão António e ao Raul (ambos no Brasil), etc.

Muito, muito obrigado a todos.

Zé Luís

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Nota: Como é óbvio, relato os acontecimentos, conforme me recordo de me terem contado. Pode haver pormenores diferentes e outras pessoas envolvidas. Se alguém tiver algo a dizer-me, faça favor...

Falecimento de uma valecarreirense, no Brasil

     Recebi do Raul Alves Sonso, no Brasil, a informação do falecimento da Sra. Maria da Conceição Alves, no passado dia 8. A Ti Conceição (que era irmã da Ti Lurdes, do Padre José Alves, etc.) vivia em Estrela d´Oeste, no Estado de São Paulo, e contava já com a bonita idade de 90 anos!

     A toda a família enlutada, enviamos os nossos sentidos pêsames...