terça-feira, 27 de abril de 2010

As Flores de Esteva e as pútegas

A esteva é um arbusto muito comum nos campos da nossa terra. Por isso, não há Valecarreirense que não a conheça, tanto mais que costuma(va) ser apanhada para aquecimento e ajuda na cozedura dos alimentos (lareiras),  fazer estrume dos currais ou adubar certas terras, fazer de vassoura para varrer os fornos, etc...

Na Primavera, quando os dias começam a aquecer, os matos enchem-se das mais variadas cores (além do verde): amarelo das carquejas e tojos, violeta do rosmaninho, moitas, etc. Mas com muitos "pontos" brancos, devido à grande quantidade de flores de esteva. Cada uma delas produz normalmente uma apreciável quantidade de flores, as quais vão abrindo aos poucos, em dias sucessivos. Cada flor permanece aberta por pouco tempo, depois murcha. Há casos em que duram apenas cerca de um dia, se o calor apertar! Noutros casos, fecham à noite e reabrem no dia seguinte...

Em miúdos, costumávamos brincar com as "pitorras" ou "carrapitos" (que resultam da infrutescência da flor), pondo-as a girar velozmente com os dedos da mão, ao desafio!...

Mas o que mais me fascina (e creio que também se passou com alguns dos nossos antepassados) é o facto da flor de esteva apresentar, em cada pétala uma mancha/pinta avermelhada, cor de sangue, por isso se costumava dizer que eram as “chagas de Cristo”. Há plantas em que as pétalas são todas brancas, sem “chagas”. Quando assim era, dizia-se que eram de Nossa Senhora, creio... Nalgumas terras, eram designadas "albinas". O mais vulgar é a flor ter cinco pétalas (portanto cinco “chagas”), mas também as há com maior número. Lembro-me de ter visto antigamente até 8 ou 9 “chagas”, pelo menos… Numa procura rápida recente apenas encontrei até 7. E parece-me que não há com menos de 4. (Foi-me cedida uma destas, recentemente - veja abaixo)...

Aqui apresento exemplos de cada situação. Se alguém encontrar outros exemplares diferentes, agradeço que me envie fotos, sim? Ou que autorize a publicar aqui...




Exemplos sem chagas:


Acrescentado em 26mar2020:

"Composição"/sequência, gentilmente cedida por Manuel Inácio, comprovando que há flores pelo menos com até 9 chagas/pétalas:


Acrescentado em 19abr2020:

Lancei o desafio, no Facebook, para que se encontrassem flores com muitas chagas. Como resultado disso, acabei de receber uma flor com 10 chagas, encontrada nos Vales de Cardigos:

(Encontrada por Teresa Martins e gentilmente cedida por António M. Silva)

Acrescentado em 09/10jun2021:

Segue mais uma, com 10 pintas (chagas), gentilmente cedida pela sr.a Maria Adelaide (em Monte Gordo, Santo André das Tojeiras):


E eis uma de 4 pintas (muito rara também), cedida pela sr.a Clementina Teixeira (...):


Raramente também, vão sendo encontradas flores, consideradas "híbridos/híbridas", como estas (das senhoras indicadas):

Encontrada em Penamacor / Serra da Malcata.

Encontrada perto de Silveira dos Limões
(Santo André das Tojeiras)

E que dizer deste "híbrido"??? (...)

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Como informação adicional, sobretudo para os mais novos: muitas vezes associadas às estevas, pois nascem junto às suas raízes, aparecem as pútegas (ou pútigas), que começam por ser vermelhas e vão-se tornando amarelas e depois acastanhadas, à medida que amadurecem. Embora tenham casca muito azeda, produzem uma espécie de arroz-doce, muito apreciado por nós, miúdos de outros tempos...
    
Parece que já vão sendo muito raras, devido ao abandono do cultivo dos campos! A seguir apresento um putegueiro (ou putigueiro), no estado inicial de crescimento, outro com elas meio maduras, e, ainda, outro com as pútegas já maduras e, depois, as mesmas arrancadas:

 
Pútegas no estado inicial de maturação.
(Agradeço a foto ao Jorge Alves)

Com meia maturação. 

As seguintes estão já maduras:

Pútegas já maduras e depois de arrancadas...

Eis outras pútigas, gentimente cedidas
pela sr.a Maria Adelaide (S.to André das Tojeiras):



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Última actualização: 10jun2021

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Jogos Tradicionais

Tradicionalmente, no Vale da Carreira, principalmente durante as tardes dos domingos e dias-santos, os jovens preenchiam o tempo e divertiam-se de muitas maneiras: jogando, cantando, correndo, bailando, etc.

Dos jogos, alguns eram feitos com rapazes e raparigas, dos quais saliento: o ringue, as prendas, o podão (apanhada), as escondidas, etc. Outros eram exclusivos dos rapazes: jogar à bola, ao moucho (bilharda), à porca-russa, ao fito, à malha, ao espeto, correr com a roda (com guiador de arame ou de pau), montar os carneiros, subir e descer nas árvores, ir aos ninhos, etc. Apenas as raparigas jogavam à semana, pedrinhas, etc.

Os mais velhos, às vezes improvisavam bailes, ao som de realejo (gaita de beiços) ou música de rádio, gravador, etc., onde dançavam a pares. Outros cantares, danças e rodas eram muito genuínos e típicos da nossa aldeia (ver outra página do blogue).

A brincadeira era divertidíssima e muito animada, fazendo frequentemente a inveja das aldeias vizinhas. Havia quem passasse, via as pessoas a ocupar assim o tempo e depois comentasse que a gente do Vale da Carreira quase não trabalhava! Ora, a verdade é que, nos dias de Verão, o calor é tanto que se torna imperativo as pessoas resguardarem-se à sombra, indo trabalhar nos campos apenas “pela fresca” (ao início da manhã e ao fim da tarde). Por outro lado, devido à sua religiosidade, sempre se “respeitava os dias do Senhor”: aos Domingos e dias-santos não havia quaisquer trabalhos nos campos. E mesmo o gado (rebanhos) era frequentemente alimentado apenas nos currais, nesses dias…

Toda essa “azáfama” de diversão era muito salutar: desgastavam-se energias, praticava-se exercício físico e promovia-se o relacionamento interpessoal, de tal forma que não havia lugar a inimizades, todos se conheciam e conviviam quase como irmãos.

Bons velhos tempos!

terça-feira, 30 de março de 2010

Aos Taralhões

Como sabem, existe uma grande variedade de pássaros na nossa região. Alguns permanecem por cá todo o ano (os autóctones: pardais, melros, tentilhões, etc.), enquanto outros (migradores) aparecem em certas alturas do ano. Destes saliento: na Primavera, as andorinhas e os cucos, e, no final do Verão e princípio do Outono (de Agosto a Outubro), os designados de “taralhões” (felosas, galegos, moscanhos, piscos, etc.) e, mais tarde ainda, de Novembro em diante, os tordos.

Cuco.

Tordo.

Parte do tempo dos rapazes era passado a “dominar a natureza”, do seguinte modo: na Primavera, à procura dos ninhos; no Verão, fazia-se a caça aos pardais (desviando-os do milho e das medas nas eiras); no Outono, a apanhar os “taralhões”; e, no Inverno, tentava-se apanhar tordos, melros e alguns piscos restantes.
    
A actividade que mais nos animava era a caça aos taralhões, que começava normalmente no princípio de Setembro. Mas antes, era necessário ir à procura das “agúdias” (formigas de asas), que eram procuradas nos formigueiros e tiradas até às primeiras chuvas do final do Verão. Eram contadas em “moios” (1 moio = 60 unidades), guardadas em beterrabas (às quais se retirava parte do miolo, ficando o restante para seu alimento) ou em cabaças (variedade de abóbora). Nestas, era preciso alimentá-las com farelos ou “escardaços” (cardaço, bagaço de uvas). Na mesma altura, era fundamental preparar as armadilhas (costelas): ver se armavam e desarmavam bem, colocar os suportes para fixar as agúdias, amarrar-lhes um cordel para as atar, se necessário, etc.

A época começava com as felosas, que eram normalmente bem gordinhas e se alimentavam principalmente de figos e amoras. Depois surgiam os galegos, os ferreiros, as rabetas, os rouxinóis, os moscanhos e, mais tarde, os piscos, magrinhos e esfomeados, que apareciam em grande quantidade.
  
Os tordos apareciam no final do Outono ou início do Inverno, alimentando-se da azeitona. Havia, ainda, outros, que mais dificilmente eram apanhados, principalmente os autóctones (pardal, melro, tentilhão, meijengra/mejengra, etc.). Ocasionalmente, apanhavam-se ainda alvéolas, carriças, cotovias, pardinhas, gaios, mochos, etc.
                            
Felosa.

   Galego.

Pisco.

Ainda bem antes do nascer do sol, pegava-se nas agúdias e nas costelas (juntas num "arameiro") e começava-se a caçada. As costelas eram armadas pelos campos, adotando algumas técnicas de orientação e disfarce da armadilha (em cima ou por baixo de figueiras, silvas, trovisqueiros, outras árvores de fruta, etc.) com as agúdias presas, bem visíveis e vivas, a atrair a passarada…

Depois, havia várias visitas a cada armadilha, para retirar o que tivesse ficado preso na mesma e voltar a armar. Os taralhões apanhados eram colocados e transportados, presos pelos bicos, nesse "arameiro" ou noutro.

Após uma caçada, com os taralhões.
(Composição feita a partir de fotos de 1992/1993... Actualização feita em 14abr2011)

Isto decorria por toda a manhã, proporcionando um "gozo" indescritível, sobretudo quando a caçada era boa ou quando se presenciava algum dos pássaros, no preciso momento em que era apanhado na costela. Às vezes chegava-se ao ponto de os fazer atrair às costelas, cantando como eles ou enxotando-os para perto delas...

Havia ainda outras formas de apanhar os pássaros: com fios ou linhas enterrados, tendo na ponta um grão de milho (para os pardais); com aboízes (para tordos, melros, gaios – usando um laço ligado a uma vara em tensão, que puxava o laço quando picado o isco – até se apanhavam perdizes!); com fisgas (pau em forma de forquilha com elástico para atirar pedras); com arma de pressão de ar e chumbo; com lanterna (de noite, por baixo das árvores). O visco (produto pegajoso, onde os pássaros ficam presos pelas patas) e a rede não eram usados na nossa zona…

Depois dum dia de caçada, o que menos agradava era a tarefa de tirar as penas aos pássaros e limpá-los das tripas, o que podia levar horas a fazer, dependendo da quantidade apanhada. Mas, depois, quão saborosos eram: fritos, assados, cozidos com arroz ou molho de tomate, etc.! - (receitas típicas...)

Creio que actualmente já ninguém se arrisca a passar um dia aos taralhões, como antigamente, pois mudam-se os tempos!...

E alguns pássaros acabaram por desaparecer completamente, devido ao facto de se ter deixado de fazer cearas nos campos e de as hortas terem diminuído significativamente (declínio da actividade agrícola)… Estou a lembrar-me, por exemplo, dos cuelvos, picanços, pardinhas, papa-figos…

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Agora, a brincar:

Qualquer dia ainda nos arriscamos a ver/ouvir um miúdo a dizer o seguinte:


domingo, 28 de março de 2010

Os Moinhos de Vento e de Água. A Azenha

Os nossos antepassados sempre se esforçaram para tirar aproveitamento das forças da natureza (energias renováveis). É o caso da moagem dos cereais (para a feitura de farinha, usada no fabrico do pão e alguns enchidos – farinheiras, cadarrapos – e farelo, para consumo de animais). Desde tempos remotos, foram feitos engenhos que se moviam aproveitando a força do vento e da água: moinhos de vento, de água e azenhas.
    
Quem se lembra ainda dos moinhos de vento, em volta do Vale da Carreira? Eu lembro-me bem do que existiu no alto do “Vale Torno” (ou "Valtorno") explorado pelos dois irmãos: Ti António Lavrador e Ti Zé Sapateiro.


Ruínas do moinho de vento do Vale Torno - (ou Moinho Branco).

Fui lá muitas vezes moer, mandado pelos meus pais, carregando às costas apenas uns quilitos de cereal, pois era novo e tinha de subir, pelo caminho íngreme, a encosta junto à atual mina…

(Nota: soube, recentemente, que esse moinho também era conhecido por "Moinho Branco", por ser o único com uma faixa branca, em toda a parede exterior. Assim, foi registado e corrigido para essa designação, também em Google Maps).

No alto da “Conecril” (ou “Corga do Alecrim”) houve outro, onde trabalhou como moleiro o Ti Joaquim Alves (mais conhecido por "Carpinteiro", visto que, após a extinção do moinho, possuiu uma forja/carpintaria, no cimo da aldeia, na casa que, mais tarde também chegou a ser café/mercearia). Desse moinho a trabalhar tenho apenas uma vaga recordação... Resta-lhe no local apenas um amontoado de pedras, como se vê nesta foto de 2011:

Ruínas do Moinho do Alto da Conecril - ou do Rato.

Quanto aos que eram movidos a água, além do que ainda existe a este da aldeia (próximo da ponte de traça romana e da “Fonte Velha”), havia outros na ribeira de Mesão Frio. Em ambos, era seguido o princípio de que, conforme o seu “quinhão”, havia dia e hora certos para moer (ou ceder a outrem, caso não fosse necessário, numa determinada altura).


 
O Moinho de água do Vale da Carreira e grande plano do seu rodízio.

Ainda me lembro da Azenha que havia na ribeira de Mesão Frio, bastante mais a norte do moinho (próximo do fundo do “Vale da Figueira”). Mas atualmente apenas restam ruínas, onde nos divertíamos, empoleirados na roda, a girar… O princípio de funcionamento desta era o mesmo dos moinhos de água, mas o rodízio dava lugar a uma grande roda com pás, sobre as quais caía a água. (Se conseguir alguma foto das ruínas, aqui a apresentarei... Obrigado ao António do Ti Armando, do Mesão Frio, pelas dicas que me deu...)
    
Todos zelavam, cada um na sua vez, para que a água corresse em abundância, desde o açude ao moinho/azenha, não se desperdiçando nesse trajecto nem junto à calha (tinha uma grande inclinação, para aumentar a força da água corrente) que a fazia cair sobre o rodízio/roda. Tapavam-se os buracos que apareciam na levada com restos de pano ou com pedaços de terra com erva (as chamadas “leivas”).

As mós (uma fixa e a outra giratória), esmagavam os cereais. Por cima das mós, ficava a “moega”, reservatório em forma de pirâmide invertida, onde se despejava o cereal. No fundo havia uma ranhura por onde o cereal saía para o buraco da mó giratória. Um mecanismo permitia iniciar, parar e regular a quantidade de cereal a entrar para a moagem.



Mó e moega.
      
Antes da água chegar ao ro velocidade de rotação do rodízio (e, portanto, também da mó giratória) era controlada, quer diminuindo ou aumentando a quantidade de água que descia pela calha, em direcção ao rodízio, quer fazendo subir ou baixar essa mó e, desse modo, passava a ter menos ou mais atrito sobre a mó fixa. Assim, e sincronizando ainda com a maior ou menor quantidade do cereal que se deixava escorrer da moega, a farinha ficava mais grossa ou mais fina, respectivamente. Também era necessário, pelo menos uma vez por ano, picar as mós (com um martelo pontiagudo), para que a moagem fosse eficiente...

A mistura de farinha/farelo moída saía pela parte da frente das mós e caía para uma zona resguardada por um pano, para evitar que se espalhasse ou perdesse, nomeadamente no caso de haver vento. Aí era apanhada à pá e se enchiam as sacas.

Lembro-me muito bem de que, quase sempre, num canto do moinho havia espaço reservado a fazer fogueira, para aquecimento e/ou iluminação, enquanto se esperava, por vezes horas, para que o cereal moesse completamente ou o suficiente para se apanhar a farinha. Fui muitas vezes, até de noite (à luz da lanterna de petróleo), com o meu pai ou a minha mãe, e eles faziam fogueira, nesse canto, para nos aquecermos, enquanto esperávamos pela finalização da moagem...

Dados os locais onde eram construídos, por vezes era difícil o acesso aos mesmos, pelo que se tinha de carregar às costas os sacos com os cereais e a farinha, de dia ou de noite, com água e/ou vento abundante. Mas quão saborosos eram os produtos feitos com essa farinha, o que contribuía para compensar os esforços e canseiras tidos!...

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Actualização de 06jan2023

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Matança do Porco

Criar e matar um ou mais porcos por ano era uma tradição frequente na nossa aldeia, pois o consumo de carne de porco era muito grande. Os outros tipos de carne (vaca e aves) quase não tinham expressão. E, apesar de criados, mesmo o cabrito, galinha, cabra ou borrego/ovelha eram muito raramente mortos para consumo (apenas em dias especiais, nomeadamente festas ou casamentos).

Com muitos meses de antecedência (até quase um ano), compravam-se os porcos recém-nascidos (leitões). Estes eram depois alimentados com os restos da comida das famílias, verduras, farinhas e farelos, figos, bagaço da azeitona, etc.

No final do ano, quando o frio chegava e os porcos já estavam bem crescidos, havia lugar à sua matança (entre o princípio de Dezembro e o Carnaval, por norma). Os vizinhos juntavam-se e, num dia combinado, decorria a tradicional matança, sendo mortos quase sempre diversos animais pertencentes às várias famílias. Este ritual também ainda acontece hoje em dia, com as devidas diferenças, pois mudam-se os tempos…

Englobo neste tema não só o dia em que era morto o porco mas também os seguintes, até à feitura total dos diversos enchidos, passando pelo salgar das carnes e cura dos presuntos e chispes.

O dia da matança começava com a junção de homens e/ou rapazes (5 ou mais) e normalmente pelo menos uma mulher (a dona do animal), munida dum alguidar já com um punhado de sal.
    
Às vezes, era já nesta altura que o dono do porco oferecia um cálice de aguardente, (para aquecer e dar genica). Outras vezes, era apenas depois do porco acabar de sangrar e ser deixado pronto para chamuscar que era oferecido vinho e/ou aguardente, acompanhados de pastéis ou pataniscas de bacalhau, passas de figo, etc.


Matança do porco, junto à casa dos meus pais (no Covão)
(cerca de 1975).
    
Um dos homens (o matador) empunhava a "faca sangradeira" (tipo punhal, com corte dos dois lados). Os outros tratavam de retirar o porco do curral (ou furda), agarrá-lo e colocá-lo, deitado, em cima duma banca (mesa robusta, de madeira grossa), com a cabeça ligeiramente mais baixa do que o resto do corpo, para poder sangrar melhor.

Toda a aldeia era acordada com os guinchos ("gosiar"-?) do primeiro animal a ser morto. O matador segurava uma das patas dianteiras e espetava a faca entre ela e o pescoço, de modo a atingir uma das artérias ou veias principais do bicho, próximo do coração, fazendo-o sangrar até à exaustão.  O sangue era aparado no alguidar e continuamente mexido, com o sal, para não coagular ("colhar") de imediato. Iria mais tarde servir para as morcelas, a semineta e, às vezes, também para juntar ao cozido.

Não era raro o animal espernear violentamente, causando às vezes cortes com os cascos (canelos) das patas ou os dentes, pelo que tinha de ser bem seguro pelas patas, orelhas, rabo, etc.

Depois de morto (“esticar o pernil”), passava-se à fase de chamuscar e lavar. Com a ajuda de carqueja ou palha a arder, era queimado o pêlo e arrancados os canelos e a ponta do focinho. (Modernamente, usa-se o maçarico a gás.) De seguida, era bem raspado, esfregado e lavado, com ajuda de facas afiadas, carqueja verde, colher de pedreiro ou um pedaço de telha. (Às vezes, alguns dos pelos maiores - "cerdas" - eram aproveitados pelos sapateiros, para a ponta das linhas/fios de coser o calçado!) Por fim, era-lhe retirado o máximo de fezes, com a ajuda de água corrente, e separada e atada a tripa do ânus.

De seguida, era colocado um chambaril nos tendões das patas traseiras. Depois de levado em braços para dentro de casa, era suspenso numa corda atada a um barrote do tecto ou num gancho forte. Já de cabeça para baixo, era então aberto pela barriga e retiradas as tripas e separadas as restantes vísceras. Ficava depois algumas horas a escorrer os restos de sangue ou água para um recipiente e arrefecia completamente.

As mulheres e/ou raparigas dirigiam-se a um curso de água (barroca, ribeiro, ribeira - na falta de água corrente nestes, servia uma mangueira com água vinda de um poço ou da fonte pública), para lavarem as tripas. Bem lavadas e esfregadas com sal e casca e/ou sumo de laranja, seriam depois aproveitadas para fazer os diversos enchidos. (Só mais tarde, apareceram à venda as tripas de vaca...)

Enquanto as mulheres estavam assim ocupadas, era frequente os homens aproveitarem o tempo para, de adega em adega, provarem o vinho novo. Para alguns, era dia de bebedeira certa!

Para o almoço do dia da matança era muitas vezes logo feita a "semeneta/semineta" (pedaços pequenos de fígado, sangue, pulmões/bofes, coração, rim, feitos com cebola, alho, azeite e vinho), bem como os "entretinhos" fritos (banha rendada da barriga, à volta dos intestinos - noutras terras conhecida por redanho ou chichorro), que eram comidos ainda quentes.

No final do dia, eram feitos os primeiros enchidos, as morcelas, para aproveitar o resto do sangue do porco, entretanto já coagulado e depois partido em pedaços muito pequenos. Com agilidade, as tripas eram enchidas, com a ajuda de uma enchedeira, cosidas com fio grosso e cortadas à maneira! Depois, eram fervidas em água e colocadas a secar/defumar nas varas do fumeiro. Nos dias seguintes, devia ser mantido aceso algum lume por baixo do fumeiro, o maior tempo possível.

Era habitual o jantar do dia da matança constar de carne nova cozida (suã, pulmões, goulã e, às vezes, também um pouco de sangue), acompanhada das boas couves da horta. Havia quem fizesse então a semineta, em vez de ser ao almoço, mas dizia-se não ser aconselhável, “por ser reinadia”. (Nem se devia comer muita quantidade, pela mesma razão. E, de preferência, devia ser acompanhada de “boa pinga”!)

No início dessa mesma noite (ou eventualmente no dia seguinte), o porco era descido do chambaril e desmanchado completamente, separando as carnes a salgar (toucinho, presuntos, chispes, cabeça, pés/patas) da carne para consumo quase imediato ou que iria ser usada nos restantes enchidos. Assim, a carne magra servia essencialmente para fazer as chouriças magras e os paios, a mais ensanguentada era aproveitada para as mouras, bucho, bexiga. Era frequente usar-se juncos verdes (cortados nos dias anteriores, da beira das ribeiras ou locais húmidos), para revestir o chão onde se executavam estas tarefas.

Estes enchidos eram feitos apenas uns dias depois, dado que as carnes ficavam migadas em alguidares ou bacias, onde eram temperadas com sal e outros condimentos necessários (colorau, cominhos, alho, vinho, etc.) e ficavam a ganhar o verdadeiro sabor. Ah, como todos gostavam de provar essas carnes, grelhadas no espeto, antes da sua feitura!...

Das tripas do intestino grosso faziam-se os paios (o "nascediço" e outros mais pequenos), bem como os chouriços "rosqueiros", que ficavam com um sabor picante, característico!

As farinheiras eram as últimas a ser feitas, especialmente à base de carne gorda/toucinho, a qual era misturada com farinha. Eram feitas em maior quantidade que os outros enchidos e duravam para (quase) todo o ano.

Por vezes, havia ainda quem aproveitasse restos da massa da feitura das farinheiras, lhe juntasse um pouco mais de carne e fizesse “cadarrapos” (uma espécie de filhó ou pastel,) que eram fritos às colheradas e comidos ainda quentes. Oh, que saudades, por serem tão saborosos!...

Como não havia arcas frigoríficas, a maior parte da carne era salgada e guardada na salgadeira. Outra (febras, costela) era feita e depois guardada, em toucinho derretido (banha), durante algumas semanas, ou mesmo meses, até ser totalmente consumida. Os enchidos, depois de retirados do fumeiro, eram conservados em azeite, em talhas, à semelhança do que era feito com os queijos...

Os presuntos e chispes só eram retirados do sal após 2 a 3 meses, sendo então revestidos com uma calda à base de pimentão/colorau e dependurados no fumeiro a defumar/curar por mais uns tempos.

Não era raro, principalmente nas famílias maiores, ir trocar presuntos por toucinho. Lembro-me do meu pai ir até aos Envendos ("Presuntos da Mata") fazer essa troca e trazer diversas bandas de toucinho, que era depois consumido ao longo do ano, se possível fazendo-o durar pelo menos até à próxima matança. O mesmo cuidado havia com o consumo dos enchidos…

Como já se disse, esta tradição ainda se mantém em algumas famílias/aldeias, com as necessárias adaptações. Por exemplo, as salgadeiras e a conserva em banha já não são necessárias, com o aparecimento das arcas frigoríficas e dos congeladores. A intervenção do veterinário e/ou o abate no matadouro são outras mudanças...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Tradição das JANEIRAS

Na noite fria do dia 09 de janeiro de 2010, voltou a viver-se, na Capelania do Caniçal (Bairrada, Vale da Carreira, Caniçal Fundeiro e Caniçal Cimeiro), o Cantar das Janeiras. Desconhece-se a data em que tal tradição se iniciou, sabendo-se, contudo, pelas pessoas mais velhas, residentes no Vale da Carreira, que, já nos finais do século XIX, existia esta prática. Embora este cantar seja designado das “Janeiras”, na realidade, penso que seria mais apropriado designar-se “Cantar os Reis”, atendendo aos versos [ver abaixo, neste blogue - Etiqueta "Janeiras/Reis"], os quais, segundo julgo saber, são propriedade da Capelania do Caniçal.

O cantar das Janeiras (ou "Cantar os Reis") é feito apenas por homens que, deslocando-se de aldeia em aldeia, vão cantando em vários locais de cada uma delas, conforme a sua dimensão e a população aí residente. Divididos em dois grupos (designados de pernas), os homens entoam os vários versos, em que a perna 1 inicia com verso repetido e a perna 2 responde, em verso simples, completando o sentido do primeiro. Enquanto as vozes arrastadas e fortes dos cantadores ecoam pelo silêncio da noite, outros homens (os do saco) visitam todas as casas da aldeia, cumprimentando os seus moradores, desejando bons Reis e recolhendo as suas ofertas (tradicionalmente designadas de esmola). Ao baterem às portas dão a seguinte saudação: “Esmolas para as almas se quiser e puder”. Ao receberem as dádivas agradecem, com a seguinte expressão: “As alminhas agradeçam as vossas esmolas”, ao que os ofertantes respondem: “E a vocês as vossas passadas”.

As esmolas, nos tempos mais antigos, traduziam-se, essencialmente, em bens produzidos pelas próprias pessoas: enchidos, trigo, milho, batata, laranjas, pão, azeite, queijo, mel (até me lembro de ver grandes nacos de toucinho no lote das ofertas), e outros produtos extraídos da terra e dos animais. Hoje, embora ainda sejam oferecidos alguns destes bens alimentares, a oferta é essencialmente em dinheiro, dado que a maioria da população, já envelhecida, não trabalha a terra como no passado e, felizmente, possui outra disponibilidade financeira, que os nossos avós não tinham. “Mudam-se os tempos”…

Os produtos recolhidos são leiloados no adro da Capela, à saída da celebração da missa do dia seguinte (Domingo).

A Capela do Caniçal Cimeiro.

Toda a recolha efetuada e já convertida totalmente em dinheiro é entregue à Capela do Caniçal e reverte a favor de celebrações litúrgicas em sufrágio das almas dos familiares, já falecidos, das pessoas que contribuem com a sua oferta.

Além da oferta da sua esmola para a Igreja, muitas casas, com mesa posta, abrem-se para receber todo o grupo. Cria-se, assim, a oportunidade de um maior convívio entre todos e o “afinar” das vozes, enquanto se saboreiam os bons enchidos, presunto, queijo, passas, castanhas assadas, filhós e outros pitéus, bem conhecidos de todos nós, e se bebe o vinho, normalmente produzido pelos ofertantes.

O Cantar das Janeiras, quando o dia de Reis era dia-santo, em Portugal, era sempre feito no dia 05 de Janeiro (véspera de Reis), nas aldeias da Capelania do Caniçal. Actualmente e por norma realiza-se no Sábado mais próximo do dia de Reis. Lembro-me de que, quando era miúdo, sendo o meu pai Francisco coordenador deste grupo do cantar das Janeiras (serviço que recebeu do meu avô José Alves), se calcorreavam as aldeias da Pracana e vizinhas e também o Freixoeiro, Arganil, Moita Recome e Mesão Frio (onde se voltou a ir, a pedido de alguns dos seus habitantes, desde há dois anos, embora não pertença à Capelania do Caniçal), com a mesma intenção e devoção. Nesses tempos idos em que o Cantar das Janeiras saía fora da área geográfica da Capelania do Caniçal, o grupo de cantadores também tinha elementos oriundos da Moita Recome e do Mesão Frio.

Esta tradição que é, simultaneamente, um ato de fé e generosidade para quem nos precedeu, é vivida com muita intensidade e amor à sua terra e às suas gentes. Só assim se justifica que muitos de nós, residentes fora da terra natal, façamos todos os possíveis para estar presentes neste dia. E é bom, reconfortante e esperançoso ver pessoas de todas as idades, irmanadas do mesmo espírito, desde o elemento mais velho do grupo, o Ti Dionildo do Caniçal Fundeiro, com oitenta anos de idade, até aos elementos mais novos, na casa dos vinte. Este ano, em que comemoramos o ano sacerdotal, pudemos também contar com a presença do nosso Pároco, o Sr. Padre Ilídio, o que foi para nós um estímulo e sinal de que a Igreja aprecia este trabalho que também é de evangelização.

Esta noite, designada do Cantar das Janeiras, certamente não irá desaparecer tão cedo, dada a forte motivação de todos nós para este serviço que faz esquecer os momentos menos bons da vida e sentir que vale a pena manter bem vivas as sãs tradições que os nossos antepassados nos legaram.

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Reprod./adapt. autorizada do artigo publicado no Jornal “O Concelho de Proença-a-Nova” n.º 614, de 25/01/2010, da autoria de Fernando Alves (Vale da Carreira / Caldas da Rainha).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Estrada Alcatroada!

Em meados do século passado, era grande o isolamento do Vale da Carreira, bem como da generalidade das aldeias da parte sul do Concelho de Proença-a-Nova.

Mas, cerca de 1961-62, algo veio ajudar a mudar a situação: o grande melhoramento efectuado na estrada que atravessa a aldeia (então designada Estrada Nacional n.º 3 – EN3, agora N241-1), que foi finalmente alcatroada!

Embora eu fosse bastante novo (estaria para ir para a escola primária ou andaria na primeira classe), lembro-me como se fosse hoje: picaretas, enxadões, pás, carros-de-mão eram ferramentas indispensáveis nas obras. A maior parte do trabalho era feita com recurso à força braçal: o nivelamento do piso, a movimentação de terra e brita, etc. Até o espalhar do alcatrão, que era liquefeito, após ter sido aquecido nos bidões colocados em cima de fogueiras a lenha, era feito manualmente. A lenha provinha muitas vezes dos grandes eucaliptos que havia à beira da estrada e que eram cortados na altura para o efeito. Grandes toros de madeira eram transformados em cavacas que depois de secas eram então usadas.

Além das ferramentas manuais, havia apenas uma ou outra camioneta e um “dumper” para transportar brita, gravilha, areia, manilhas ou pedras maiores, assim como um pesado cilindro, que calcava e compactava o novo piso formado.

Eu, pequeno e leve, passava muitas tardes de domingo e dias-santos a andar à boleia na bicicleta de um dos rapazes que trabalhava nessas obras: andávamos horas a fio, estrada acima estrada abaixo, como que a testar o novo piso!...

Como episódios desagradáveis da altura, refiro o facto de ser frequente os miúdos descalços ferirem-se nos pés, dada a dureza do novo piso ou ao pisarem restos de arame das vassouras que haviam sido usadas no varrimento dos restos da areia e brita do alcatroamento.

Com a estrada alcatroada, logo a aldeia ganhou outra alma, cada vez mais de cara lavada. As valetas e as bermas passaram a ser em paralelepípedo, bem como o Largo da Fonte. Aqui se fazia a maior parte do convívio e dos jogos tradicionais.

Depressa acabaram as ruas onde até então se costumava espalhar mato, previamente roçado nos campos, para fazer estrume, aproveitando-se os excrementos dos animais que passavam e que desfaziam o mato, bem como as carroças.

Ano após ano, foi aumentando o trânsito de veículos na nova EN3. Dizia-se que muitas pessoas das aldeias vizinhas vinham de propósito até aqui ou se aproximavam do alto dos cabeços circundantes para ver os automóveis que passavam...

Nos anos que se seguiram, o progresso continuou com a construção e beneficiação de novas estradas (do Vale de Água, da Bairrada), ligando essas aldeias à melhorada EN3.
                                
Alguns anos depois, a estrada foi renomeada, passando a designar-se de N241-1. Embora a quantidade de tráfego tenha atingido o máximo entre 1975 e 1990, a estrada continuou a receber alguns melhoramentos, nomeadamente na sinalização e marcações (traços), ao centro e junto às bermas. Também se alteraram os tipos de marcos quilométricos e hectométricos... Seguem exemplos obtidos dentro do Vale da Carreira:





Passou o tempo, modificaram-se a estrada e a aldeia, mas não mudou muito a maneira de ser das pessoas, que continuam a bem receber e acolher todos quantos aqui nasceram, têm raízes, visitam, ou apenas por aqui passam, de fugida. Esperamos que esta maneira de ser e de estar permaneça pelos tempos fora. Que continuemos orgulhosos de poder ser chamados de beirões, no mais puro sentido da palavra…

"À eira, colmo!"

A eira do Vale da Carreira está presentemente tão degradada e irreconhecível (apesar de a aldeia ser bem pequena), pelo que os mais novos talvez nem saibam onde fica. Nem como eram os trabalhos que nela se realizavam... Pois bem, fica junto à actual casa da Alice Dias/António João.

O aspecto actual da antiga eira.

A eira era um pedaço de terreno, com um adro de cimento ou barro, em local elevado e bem arejado, usado para a debulha (malha) e secagem dos cereais mais comuns na zona: trigo, centeio, cevada (e mais tarde até milho, grão-de-bico, etc.).

A quase toda a volta desse adro, havia uma pequena parede de protecção, para evitar a fuga do grão, como ainda é visível do lado esquerdo desta imagem da eira em ruínas.

Os buracos que iam surgindo no piso do adro ou nas paredes, quase sempre devidos às formigas, eram tapados antes da realização da debulha. Como ainda não tinha chegado a era do cimento, usava-se o barro e mesmo o excremento (bosta) dos bois misturado com cinza, mistura essa que, depois de colocada nos buracos, secava e endurecia, impedindo as fugas do grão dos cereais!...

Depois de ceifados os campos, os molhos (feixes) eram trazidos de carroça para as proximidades do recinto da eira e, em lugares previamente definidos, cada família construía a sua meda de cereais, amontoando os molhos, com as espigas viradas para dentro a fim de não serem comidas pelos animais, pássaros e outras aves que então por aqui abundavam e, também, para proteção da humidade e da chuva...

Antes da aparição das máquinas de debulha automática (no final da década de 60), todo o trabalho na eira era manual. Quando era chegada a altura da debulha (das malhas), que se prolongava por dias ou semanas, os homens eram os primeiros a aparecer na eira, logo bem de madrugada. Colocavam os molhos frente a frente, sobrepostos pelas espigas, no centro da eira. Depois, com as moueiras (manguais), tratavam de separar o grão da palha.

Moueira (mangual).

Era um ritual digno de se ver: frente a frente, de um lado ficavam os homens canhotos e do outro os direitos (destros). Alternadamente e num ritmo certo, cada grupo desferia ataques de moueira sobre as espigas do cereal a debulhar.

Os miúdos, que entretanto já tinham também chegado à eira, divertiam-se a brincar ou correr à volta das medas, enquanto não era chegada a sua vez de intervir e colaborar também nos trabalhos. De vez em quando, os homens pediam-lhes água fresca, que eles retiravam de um cântaro que estava colocado à sombra de uma das medas. Que saborosa era a água, normalmente servida num púcaro de alumínio, quando o sol já se fazia sentir abrasador (por volta das 9/10 horas já a temperatura seria de mais de trinta graus, em muitas ocasiões)!

Quando os homens achavam que os molhos já haviam sido suficientemente batidos e o cereal separado das espigas, davam-lhes indicação para irem chamar as mulheres, que tinham ficado em casa, tratando de outros afazeres.

A meio caminho entre a eira e as casas da aldeia, lá do alto, o grupo de jovens começava a gritar, em uníssono, repetidamente e a todo o fôlego, “à eira, colmo; à eira, colmo!: quem vem, vem; quem não vem, não come...”, para que as mulheres ouvissem o chamamento. Esta era a forma de elas saberem que deveriam então dirigir-se à eira para ajudar a separar a palha do colmo. Era também sinal de que, depois de retirado o colmo e a palha, todos iriam saborear o apetitoso almoço!

Com agilidade, as mulheres procediam à selecção da palha e do colmo: o colmo difere da palha por o caule não ter ficado tão danificado ou batido, sendo depois usado para atar novos molhos ou feixes de cereal, nesse ano ou seguinte, além de também ser usado como telhado de cabanas, currais, etc. Os jovens continuavam a ajudar nesta fase, transportando a palha e o colmo, aos braçados ou com a ajuda de cordas, amontoando-os em locais previamente fixados, onde iriam ser posteriormente guardados em medas ou levados para os palheiros... 

Dos palheiros existentes do lado sul da eira, apenas restam vestígios como estas paredes, já tomadas pelas silvas:


O grão separado ficava amontoado no centro da eira, sendo depois limpo de impurezas, ao vento (geralmente mais pelo final da tarde), pelos homens e mulheres. De seguida era medido (em alqueires), colocado em sacos e transportado para casa. Aí era guardado em arcas e consumido durante o resto do ano.

Na devida altura chegava também à eira o almoço. Este era comunitário, sendo oferecido pela (ou por uma) família a quem se estava a debulhar/malhar nesse dia. Da ementa constavam os habituais “petiscos” da época (pão caseiro, queijo, chouriço, presunto, etc.), além de alguma fruta da zona. Normalmente não era esquecido o arroz-doce.

Permitam-me que lembre aqui um episódio ocorrido certo dia com o meu pai, que habitualmente dizia que não gostava de leite. Ao ser-lhe passada uma tigela de arroz-doce, logo a recusou dizendo que tinha sido feito com leite. A mulher que preparou o almoço (a Ti Conceição da Pracana) insistiu que comesse à vontade, pois, “como não tinha leite em casa, tinha feito o arroz-doce sem leite”! O meu pai, a medo, lá começou a provar e devia já estar convencido, quando uma das filhas da senhora exclamou: “Ó mãe, eu ouvi-te a dizer que ias ordenhar a ‘chuvenisca’ (1) para fazer o arroz-doce”. Repentinamente, o meu pai parou de comer e largou a tigela, dizendo: “Bem me parecia!”...

Como se referiu já, no final da década de 60, apareceram as debulhadoras (debulhadeiras), máquinas que permitiram tornar os trabalhos mais rápidos e menos trabalhosos. Mas mesmo assim, o convívio (com almoço na eira) também existia, a entreajuda e o comunitarismo imperavam...    

Debulhadeira em laboração.

Ao lado do piso da eira, onde eram feitas as medas, quase não se deixava crescer árvores, arbustos ou outra vegetação. Com o abandono, hoje podem aí ver-se já árvores de maior porte, como o medronheiro seguinte:

    
Os trabalhos comunitários na eira sempre serviram para manter a união dos habitantes do Vale da Carreira. Pena é que a situação se tenha alterado tão radicalmente nas décadas seguintes, com o gradual esvaziamento e “fuga” para as cidades/vilas, e a consequente diminuição das actividades agrícolas... Mesmo assim, os mais velhos recordam com nostalgia esses “bons velhos tempos” e fazem questão em os dar a conhecer aos mais novos. (É um dos propósitos deste blogue...)

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(1) Nome dado à cabra

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

As JANEIRAS (ou CANTAR OS REIS) da nossa terra

Estes são os versos das Janeiras (ou "Cantar os Reis"), que eram cantados (ou ainda são), por norma, numa noite de Sábado para Domingo, antes do "Dia de Reis" (6 de Janeiro):

PARTIRAM OS TRÊS REIS MAGOS (bis)
P´LAS PARTES DO ORIENTE

P´RA VER DEUS OMNIPOTENTE (bis)
POR UMA ESTRELA GUIADOS

GUIADOS A JERUSALÉM (bis)
ONDE HERODES ESTAVA

HERODES POR SER MALVADO (bis)
POR SER MALVADO MALINO

MANDOU ENSINAR OS REIS (bis)
ÀS AVESSAS O CAMINHO

SEGUEM OS REIS A ESTRELA (bis)
VÃO SEGUINDO O SEU CAMINHO

AFASTADOS DE BELÉM (bis)
VIRAM ESTAR O DEUS-MENINO

ESTAVA A VIRGEM SAGRADA (bis)
COM PENA E GRANDE DOR

VENDO QUE NUMAS PALHINHAS (bis)
NASCEU NOSSO REDENTOR

E OS REIS COM GRANDE ALEGRIA (bis)
AO VEREM PRENDA TÃO BELA

ANJOS CANTEM ALELUIA (bis)
ALEGREM-SE OS CÉUS E A TERRA

OUTRAS FESTAS COMO ESTAS (bis)
CANTAM OS REIS AOS FIDALGOS

MANDE-NOS CANTAR, SENHORA (bis)
DEUS NOS DÊ REIS MELHORADOS

MELHORADOS NAS VIRTUDES (bis)
RECORTADOS NOS PECADOS

(A)LEVANTE-SE, Ó SENHORA (bis)
DO SEU LEITO DE PAU-PRETO

VENHA NOS DAR A ESMOLA (bis)
EM LOUVOR DO NASCIMENTO

OS MORADORES DESTAS CASAS (bis)
MAIS AS SUAS MORADORAS

TODOS SEJAM VISITADOS (bis)
P´LA VIRGEM NOSSA SENHORA

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Nota: Os versos são cantados alternadamente por dois grupos (ou pernas)... Enquanto se canta(va), há/havia elementos a recolher as dádivas/ofertas dos moradores da aldeia, passando de casa em casa...

Nasceu o blogue do Vale da Carreira

Olá, amigos e conterrâneos!

Acabo de criar e começar (à experiência) um blogue (ou "blog") sobre a aldeia de Vale da Carreira (do concelho de Proença-a-Nova). Nos próximos tempos livres, irei começar a publicar sobre variados assuntos e, sempre que possível, com fotos/imagens.

Espero que se divirtam a ler/ver este blogue, com as memórias e atualidades relacionadas com esta aldeia e suas gentes, usos e costumes, convívios e festas, homenagens a antecedentes/familiares, curiosidades, humor, etc...

Aqui encontrareis também diversa informação útil (sobre Sol, Lua, eclipses, marés no Verão), além do estado do tempo, incluindo ligações para "sites"/sítios de observações e previsões meteorológicas.

Venham visitar-me sempre que quiserem. Se precisarem de ajuda ou pretenderem colaborar, contactem-me (ver em "Acerca do autor", na barra lateral)...

Obrigado e até breve...
Zé Luís

(19jan2010)
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Nota acrescentada em 16abr2010Alguns temas e páginas são inicialmente publicados sem fotos ou imagens, mas estas poderão vir a ser acrescentadas posteriormente, havendo reformulação dos mesmos, pelo que não são de estranhar mudanças no conteúdo e na aparência do blogue...

- Nota acrescentada em 09fev2011Tenho revisto os textos, tentando adaptá-los ao novo Acordo Ortográfico, mas pode haver algumas falhas... Não há necessidade de muito rigor, pois temos até 2015 para nos adaptar!...

- Nota acrescentada em 01jan2013: Mais recentemente, vai-me apetecendo dizer NÃO ao Acordo... Então, não se admirem por encontrarem aqui as duas opções...

- Risquei a expressão "à experiência", porque os incentivos recebidos me "obrigaram" a continuar... Espero que gostem, contribuam e vão divulgando. Obrigado.  Ah, e podem comentar as publicações!