terça-feira, 27 de abril de 2010

As Flores de Esteva e as pútegas

     A esteva é um arbusto muito comum nos campos da nossa terra. Por isso, não há valecarreirense que não a conheça, tanto mais que costuma(va) ser apanhada para aquecimento e ajuda na cozedura dos alimentos (lareiras),  fazer estrume dos currais ou adubar certas terras, fazer de vassoura para varrer os fornos, etc...

     Na primavera, acompanhando os dias que começam a aquecer, os matos enchem-se das mais variadas cores (além do verde, em geral, amarelo das carquejas e tojos, violeta do rosmaninho, etc.), mas com muitos "pontos" brancos, devido à grande quantidade de flores de esteva. Cada uma delas produz normalmente uma apreciável quantidade de flores, as quais vão abrindo aos poucos, em dias sucessivos. Cada flor permanece aberta por pouco tempo, depois murcha. Há casos em que duram apenas cerca de um dia, se o calor apertar! Noutros casos, fecham à noite e reabrem no dia seguinte...

     Em miúdos, costumávamos brincar com as "pitorras" ou "carrapitos" (que resultam da infrutescência da flor), pondo-as a girar velozmente com os dedos da mão, ao desafio!...

     Mas o que mais me fascina (e creio que também se passou com alguns dos nossos antepassados) é o facto de a flor apresentar em cada pétala uma mancha avermelhada, cor de sangue, por isso se costumava dizer que eram as “chagas de Cristo”. Há plantas em que as pétalas são todas brancas, sem “chagas”. Quando assim era, dizia-se que eram de Nossa Senhora, creio... Nalgumas terras, eram designadas "albinas". O mais vulgar é a flor ter cinco pétalas (portanto cinco “chagas”), mas também as há com maior número. Lembro-me de ter visto antigamente até 8 ou 9 “chagas”, pelo menos… Numa procura rápida recente apenas encontrei até 7. E parece-me que não há com menos de cinco (ou eventualmente 4 ?)...

     Aqui apresento exemplos de cada situação. Espero que alguém que encontre outros exemplares diferentes me envie fotos, sim?


Exemplos sem chagas:

     Como informação adicional, sobretudo para os mais novos: muitas vezes associadas às estevas, pois nascem junto às suas raízes, aparecem as pútegas, que começam por ser vermelhas e vão-se tornando amarelas e depois acastanhadas, à medida que amadurecem. Embora tenham casca muito azeda, produzem uma espécie de arroz-doce, muito apreciado por nós, miúdos de outros tempos...
    
     Parece que já vão sendo muito raras, devido ao abandono do cultivo dos campos! A seguir apresento um putegueiro, no estado inicial de crescimento e, depois, outro com as pútegas já maduras e as mesmas depois de arrancadas:

 
Pútegas no estado inicial de maturação. - (Agradeço a foto ao Jorge Alves)

Pútegas já maduras e depois de arrancadas...

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Última atualização: 01mai2017

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Jogos Tradicionais

     Tradicionalmente, no Vale da Carreira, principalmente durante as tardes dos domingos e dias-santos, os jovens preenchiam o tempo e divertiam-se de muitas maneiras: jogando, cantando, correndo, etc.

     Dos jogos, alguns eram feitos com rapazes e raparigas, dos quais saliento: o ringue, as prendas, o podão (apanhada), as escondidas, etc. Outros eram exclusivos dos rapazes: jogar à bola, ao moucho (bilharda), à porca-russa, ao fito, à malha, ao espeto, correr com a roda (com guiador de arame ou de pau), montar os carneiros, subir e descer nas árvores, ir aos ninhos, etc. Apenas as raparigas jogavam à semana, pedrinhas, etc.

     Os mais velhos, às vezes improvisavam bailes, ao som de realejo (gaita de beiços) ou música de rádio, gravador, etc., onde dançavam a pares. Outros cantares, danças e rodas eram muito genuínos e típicos da nossa aldeia (ver outra página do blogue). Creio que os jogos de cartas, fito e malha só apareceram mais recentemente…

     A brincadeira era divertidíssima e muito animada, fazendo frequentemente a inveja das aldeias vizinhas. Havia quem passasse, visse as pessoas a ocupar assim o tempo e depois comentasse que a gente do Vale da Carreira quase não trabalhava! Ora, a verdade é que, nos dias de verão, o calor é tanto que se torna imperativo as pessoas resguardarem-se à sombra, indo trabalhar nos campos apenas “pela fresca” (ao início da manhã e ao fim da tarde). Por outro lado, devido à sua religiosidade, sempre se “respeitava os dias do Senhor”: aos domingos e dias-santos não havia quaisquer trabalhos nos campos. E mesmo o gado (rebanhos) era frequentemente alimentado apenas nos currais, nesses dias…

     Toda essa “azáfama” de diversão era muito salutar: desgastavam-se energias, praticava-se exercício físico e promovia-se o relacionamento interpessoal, de tal forma que não havia lugar a inimizades, todos se conheciam e conviviam quase como irmãos.

     Bons velhos tempos!