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segunda-feira, 25 de junho de 2018

Acabou o Convívio/Festa de 2018! Obrigado a todos!

Obrigado a todos os convivas que nos honraram com a sua presença, nos dias 23 e/ou 24jun, no Convívio/Festa do São João...
E a todas as pessoas e Entidades que, de qualquer forma, nos apoiaram, ficamos muito gratos.

T-shirt do Raul Alves Sonso, alusiva ao evento.

Veja fotos e descrição na Página 2, além do Facebook, (evento "Convívio do São João" e cronologias de vários Valecarreirenses)...

O próximo está previsto para 26 e 27 de junho de 2021.

O Presidente da Direcção da LAVRAR,
José Luís Dias 

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Depois do incêndio, a aldeia ficou triste!

O Vale da Carreira foi fustigado pelo tão falado incêndio que começou na Várzea dos Cavaleiros, Sertã, no passado dia 23jul, e que se propagou rapidamente para sul, na direcção dos concelhos de Proença e Mação... Ao final desse dia, durante a noite e no dia seguinte, os poucos residentes portaram-se como heróis ao defenderem a aldeia, evitando que as casas fossem atingidas pelo fogo. Merecem o nosso agrdecimento e, sem dúvida, uma homenagem pública...

Há muitos anos, ou talvez nunca, se tinha vivido aqui uma situação tão dramática como esta... Felizmente, não houve habitações ardidas nem acidentes pessoais!

Eis uma pequena amostra da triste situação em que ficou a paisagem:
 


Agradeço ao João Patrício a cedência das fotos acima. Também são suas estas palavras: "Desta vez foi por pouco. Graças ao Zé, ao Jorge, ao Ramiro, ao João Branco, à Alice e dois amigos lá se salvou a aldeia. À nossa casa valeram os Bombeiros de Proença que passaram na hora certa, apagaram as chamas à volta da casa e seguiram. Obrigado a todos."


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Acrescentado em 02set2017:

Como o António Joaquim Alves descreve a desolação na aldeia:

Vale da Carreira
são das estevas as cinco chagas de cristo:
brancas, de jade, contrastam com as folhas, os caules
são das abelhas quase todas as flores:
urzes, rosmaninho, alecrim, flores de laranjeira
das minhas, de algumas, agora restam cinzas
são dos lameiros o branco cru do linho que há de vestir-nos,
as margaças amarelas e brancas, as papoilas frágeis, vermelhas
muitas vezes lavrei as terras, invoquei a chuva, fugi do calor,
mondei as cearas, amanheci e anouteci com o sol
à noite a luz era de candeia, a panela de barro a cozer os feijões,
o serão o começo do dia seguinte,
não havia tempo para insónias
eram tempos de milho trigo e centeio, de moinhos a vento,
de nascer e morrer quase sem sair do mesmo lugar
as ruas eram carqueja, tojos, rosmaninho, moitas
eram o adubo para as próximas sementeiras
aprender era feito de experiência, trabalho natural
numa curva da estrada a minha casa, branca de dois pisos,
uma luz sempre acesa, “Nossa Senhora de Fátima”
estive lá ontem, o fogo engoliu o verde da natureza, dos pinheiros
restam as casas quase todas vazias, agora tristes de gente
António Alves
27/08/2017

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Acrescentado em 24out2017: 

Apresento aqui uma imagem de satélite de hoje, da banda visível, de Portugal Continental, bem elucidativa do que ardeu neste verão. As áreas a escuro (preto) representam os efeitos dos incêndios (com excepção da albufeira do Alqueva)... Note-se que ardeu em locais até ao litoral da zona centro (entre Aveiro e Figueira da Foz e Pinhal de Leiria)!


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Acrescentado em 30out2017: 

Apenas ontem, mais de 3 meses depois do incêndio, passei na aldeia... Confirmou-se o que temia: encontrar uma espécie de "buraco negro", em toda aquela área. A tristeza invade-nos a alma só de olhar para o que se levanta à frente dos nossos olhos. E imaginar o sofrimento dos que, no local, naqueles dois dias (23 e 24jul) sofreram e se debateram com aquele "inferno"!...

No pouco tempo que tive para tirar fotos, eis mais uma amostra do que se pode ainda encontrar:







quinta-feira, 22 de junho de 2017

Outro poema do António Alves

Tudo, incessantemente tudo, até as memórias
desenhadas, redesenhadas, percorrem a nudez
do chão raso de poeira, desnudado de rosas,
terra magra e enxuta dos que já partiram, dos
poucos que ainda estão, canto ritmado de cigarras
e grilos – sentado nos varais duma carroça vejo
tempos em que tudo fervilhava…

um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
Entre duas leiras abandonadas o que foi um muro,
um amontoado de silvas e tábuas velhas, o que
resta duma picota – um poço vazio, no fundo
partes dum fogão, um vime a querer sobreviver…
um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
uma roseira, mais velha que o tempo, que sobreviveu
às intempéries e ao abandono, jovem e bela
aos meus olhos, perfumada, filha da terra,
mãe de muitos amores – quantas casas e quantas mesas
terá encantado antes de ser um pouco minha,
antes de fazer parte, de ser, a rainha do meu jardim?…
um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
e eu aqui, a roseira e rosas – únicas, perenes no
meu encantamento, no amor à terra onde nasci,
e a ti…

António Alves
21/06/2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mais um poema do António Joaquim Alves sobre a aldeia

Olho a ribeira.

Continua a haver maio mas já não há milho
as noras estão sem alcatruzes
a água está parada
o açude mingou.

De olhos fechados vejo gente
escuto o tic-tac das noras
vozes.

Sonho!...

Um rebanho de cabras desce a encosta
os chocalhos
umas mais afoitas acercam-se da horta.

Uma pedra fende o ar
o Manuel Branco está sentado debaixo duma oliveira.

Ao lado o cão faz-se de morto
de olhos abertos.

António Alves
09/06/2017


Foto/ Arranjo - António Alves.
(...nada como uma boa mesa e boa companhia.)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Retrato do Vale da Carreira

Nem a propósito! Como que respondendo ao meu pedido de contributos, aqui vai um texto do António Alves, que espelha a situação da aldeia...

Copiei do Facebook e agradeço-lhe...

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"Vale da Carreira…

Portas e janelas cerradas na solidão de quase não existir vida,
ruas desertas da minha infância quase nuas de paisagem.
Casas afogadas de memórias, com saudades de já não haver domingos.

Não se ouvem vozes de crianças a cirandar pelas ruas quase desertas,
até os pássaros deixaram de ter música.
Nas paredes algumas inscrições ainda recordam nomes de antepassados.

As mães já não geram filhos, os pais estão na velhice, gastos, cansados.
Existe uma paz abandonada, uma tristeza que chora e dói de saudade.

Abro os braços e respiro solidão, lembranças de muitos ontens.
Por entre pedras nuas caminho debaixo dum sol que frita os ossos.

Que me importa este silêncio se até o chão e o vazio falam comigo?

António Alves
28/09/2016

Foto - António Alves."



segunda-feira, 2 de março de 2015

O Vale da Carreira de luto, novamente...

     As Famílias Alves e Mendes e, em geral, todos os Valecarreirenses estão de luto, pois a Tia Conceição Alves partiu... Ela que tinha a mais bonita idade de todos (93 anos). A toda a família enlutada deixamos os sentidos pêsames. Que ela descanse em paz e se junte no Céu ao marido, Tio Francisco, que nos deixou já há 20 anos...

     A Tia Conceição foi uma grande mulher, esposa, mãe/avó/bisavó, tia, etc... Penso que, desde a origem da aldeia, terá sido aquela que teve a maior descendência: 13 filhos, 16 netos e 5 bisnetos...

A Tia Conceição, em jun2009.


A Tia, aos 90 anos (dez2011).



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Nota: Veja também publicação mais recente (19mar), bem como a Pág. 4... 

domingo, 30 de novembro de 2014

O canto da lenha (noutros tempos - cont.)

     Todas as casas da aldeia tinham (e continuam a ter) lareira, visto haver necessidade de aquecer a casa e seus habitantes, nos tempos mais frios, bem cozinhar alimentos para pessoas e alguns animais domésticos...

     A matéria combustível usada na fogueira compreende: para iniciar a chama, risca-se/acende-se um fósforo ou sopra-se uma brasa da fogueira anterior, que inflamam uma carqueja (ou mesmo palha, papel, pinha, etc., quando não há carqueja seca); depois, uns paus miúdos e, por cima disso, a lenha mais grossa, desde esteva a torga, azinheira, oliveira, etc.

     De salientar que, antigamente, os fósforos eram mais escassos, não se podia (no salazarismo) usar isqueiros. E, para colmatar isso, era frequente as nossas mães/avós irem perguntar às vizinhas se lhes podiam dispensar alguma brasa que restasse das suas fogueiras anteriores (ou se já as tivessem aceso antes). Isto apesar de ser muito habitual, ao findar do serão, as mães acondicionarem  debaixo da cinza algumas das melhores brasas que ainda havia, para as tentarem se manter até de madrugada...

     Ao lado da lareira, havia sempre um canto da lenha. Era o local, num canto da cozinha, onde se colocava a lenha que iria ser queimada. Não era a grande (ou maior) reserva de lenha que se tinha. Essa era guardada num canto da cabana ou num curral seco, onde, no final do Verão ou começo do Outono, se amontoava, principalmente a mais grossa, para ser usada nos meses mais frios...

     Numa linguagem meio português meio espanhol, contavam os nossos pais que, no tempo da guerra civil em Espanha (1936-39), em que muitos espanhóis se refugiaram em Portugal, alguns escondendo-se dos seus rivais, diziam uns para os outros: "Se te vas a Portugal, não te ponhas en el "canto da lenha", porque está lá o portuguesito que está siempre a decir: "mete lenha, mete lenha"."


A seta indica o canto da lenha...

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Poema ao Vale da Carreira de Proença-a-Nova... E também ao Mesão Frio de Cardigos!

Aqui publico um poema de homenagem às 2 aldeias, da autoria da Sra. Gracinda Tavares Dias, que mora na Lameira do Mesão Frio. A ela o meu muito obrigado pelo poema, foto(s) e permissão para o publicar (fonte: Facebook).

"Vale da Carreira!
És uma terra vizinha da minha
Que diariamente posso contemplar
E as pessoas das duas aldeias
São amigos que podemos estimar.

Vale da Carreira!
Passo constantemente
Pela estrada principal
Que liga as duas aldeias
Para uma amizade fraternal.

Vale da Carreira!
A aldeia da minha referência
É Mesão Frio, de Cardigos
E ambas de mãos dadas
Estimam os bons amigos!

Vale da Carreira!
És uma aldeia atraente
E com muita animação,
Do concelho de Proença
E, Mesão Frio de Mação!

Viva o Vale da Carreira
E Mesão Frio também!
Assim, desta maneira
Lhe desejo todo o bem.

Gracinda Tavares Dias
em 23 de Outubro de 2014"


Mesão Frio (tirada a Sul)

O Mesão Frio ao longe (tirada da eira do Vale da Carreira)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Olha ali em baixo... a luz do Vale da Carreira!...

     Vi fotos lindas que não resisto a me referir a elas. Ambas foram tiradas a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS).

     A primeira é do início da noite do passado dia 26 de julho:



     A iluminação nocturna, na imagem, mostra bem a distribuição e/ou a densidade dos aglomerados urbanos... Lá estão também as luzes da nossa aldeia!!! Só que é impossível saber quais. Mas, num futuro breve, deve ser possível, pois começam a aparecer fotos com tão grande definição, que se espera ser possível isso e muito mais... (Já há muitas fotos na net: procurar "fotos em gigapixels")

     Depois, aqui vai outra que mostra a Lua Cheia, numa perspectiva curiosa. À direita estão partes da ISS (painéis e módulos):



     Entretanto, se quiserem, aproveitem para se deliciar com a colecção de mais de 700 fotos, desde os treinos e preparação dos cosmonautas/astronautas da ISS, passando pela ida e vida a bordo, até às magníficas vistas de lá de cima... Apreciem aqui: https://www.flickr.com/photos/nasa2explore/sets/72157631560566351/page10/

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NB: Podem ver também: https://twitter.com/AstroKarenN

sábado, 26 de julho de 2014

Desafio... (Editado em 15fev2017: Nova foto das Tulhas do Lagar - Ver nomeadamente a pág. 11... Obrigado.)

Hoje lanço aqui um desafio a todos os valecarreirenses: vamos ver quem tem as fotografias mais antigas da aldeia, dos costumes, dos nossos antepassados, etc. Querem colaborar? Cedam-mas, enviando para o meu mail... (Ou publiquem no Facebook, etc., onde eu as possa ver e copiar) Obrigado.

Colocá-las-ei aqui, por ordem de antiguidade (se souberem o ano/anos, tanto melhor...). Para começar, vejam:

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No casamento do Raul Sonso - 22out1962:


As Tulhas do Lagar, em 1963 (Créditos: Museu de Etnologia e Benjamim Pereira):


Matança do porco, no Covão, nos anos 70:


A debulha dos cereais, na eira, em 1974:


A aldeia em 1976:


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Notas: - Até agora, a foto mais antiga é de 1940-1950;
- Estas e outras fotos podem ser também encontradas noutros artigos, nomeadamente:

http://vale-da-carreira.blogspot.pt/p/fotos-antigas-familias-eventos.html
http://vale-da-carreira.blogspot.pt/2010/07/paisagens-do-vale-da-carreira-em.html
http://vale-da-carreira.blogspot.pt/2010/03/matanca-do-porco.html
- http://www.matrizpix.dgpc.pt/MatrizPix/Fotografias/FotografiasConsultar.aspx?TIPOPESQ=2&NUMPAG=1&REGPAG=50&CRITERIO=MES%c3%83O+FRIO&IDFOTO=84513
- ...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Um retrato da minha aldeia.

Com a permissão do António Joaquim Alves (poeta e pintor), publico um post seu do Facebook. Nele se espelha bem a realidade não só desta mas de muitas terras, nomeadamente do interior... Repare-se nos termos usados e seu simbolismo (vazio/as, velhos, abandonado, inútil, silêncio, deserto/a, fogo, cinzas, morte)... Por isso, há que meditar!

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No serpentear da estrada algumas casas
a maioria vazias
ou habitadas por velhos.
Um pontão caiado de branco
uma barroca seca
um ribeiro abandonado
um moinho inútil, parado.

Terras incultas
pinheiros e eucaliptos no lugar das cearas
alguns animais
javalis, raposas e gatos
o silêncio marcado pelo vazio da vida
a estrada deserta.

Só o fogo teima em voltar
neste deserto quase vazio.
Ano após ano incêndios, cinzas e pó.
Quase morte.

António Alves
24/06/2014

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NB: Não se esqueçam de visitar o blogue deste nosso poeta/pintor - http://leiriartes.blogspot.pt/
ou o seu facebook: https://www.facebook.com/pages/Poesia-Alma-Cor/597297627056391?fref=ts

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cuidado com o maio!

     Havia uma superstição (e tradição) antiga, na nossa aldeia, que dizia que, mal chegasse o mês de Maio, não se devia ficar na cama até tarde! Ou seja, pelo menos no dia 1, todos tinham de se levantar cedo (antes do nascer do sol), pois, caso contrário, o tal bicho maio podia entrar-lhes pelo rabo!!!

     Percebe-se a intenção: como os dias começam a ficar mais quentes, é pela madrugada (pelo fresco) que se devem fazer prioritariamente os trabalhos do campo, logo toda a gente deve começar a levantar-se cedo...  




Eis um maio, no seu ambiente e ampliado...

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Vamos voltar a dedicar-nos mais à agricultura?

     Seja por necessidades relacionadas com a crise surgida nos últimos anos (há quem diga que houve um retrocesso de cerca de 30/40 anos nas condições de vida, poder de compra, preços dos produtos hortícolas), ou até como forma de ocupar o tempo livre, ou ainda porque é moda, o facto é que se está a notar-se um aumento crescente de pessoas que se dedicam a cultivar, quase exclusivamente para consumo próprio, verduras, legumes, ervas aromáticas, flores, frutas, etc.

     Tudo vale para arranjar pequenas hortinhas, não nos mesmos moldes de antigamente, em que se cultivavam maiores porções de terreno, fora das habitações. Hoje, são muitos os exemplos virados para os mini-quintais, em prateleiras, canteiros, etc. Todos os suportes servem para neles colocar um pedaço de terra, e ficarem resguardados mesmo dentro dos apartamentos, ou em redor das casas...

     A rega pode ser simples ou mais elaborada. Quem precisar, pode mesmo idealizar pequenas estufas, com plásticos, vidros, etc.

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Seguem algumas imagens retiradas da net, para dar ideias:

















     Como se vê, tudo pode servir, desde que possa conter terra e água. Haja lugar à imaginação!...

domingo, 29 de dezembro de 2013

Vale da Carreira - "post" do António Alves, transcrito do Facebook


Vale da Carreira

Poucos sabem da minha aldeia
Poucas ruas
Uma estrada e uma fonte
Uma paisagem de casas vazias.

A vida quase acabou
A estrada está quase morta
Até a ribeira secou.

Já poucos sabem dela
Sumida
Longe de tudo.

No meu tempo de criança
Foi o meu reino
A capital do mundo

Enorme como os meus sonhos.

O tempo passou.
Os sonhos não morreram.
A minha aldeia continua lá.
Eu estou vivo.
Amo…
E,
Amo a aminha aldeia.

António Alves
29/12/2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

E esta, hem! (É a crise, é da crise!)

Soube há pouco tempo, com surpresa, que já nem temos café no Vale de Água! Cada vez mais o pessoal das nossas aldeias vai ficando desamparado... Já lá vai o tempo em que em quase todas as aldeias havia esse apoio, nalgumas até havia mais do que uma taberna...

E agora, como estão as pessoas a viver com a situação? Gostava de saber mais e ouvir a vossa opinião. Será que também fechou a parte de "mini-mercado"? Comentem aqui, por favor...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Noutros tempos (4 - cont...)

10. O rebanho: buços e barbilhos; o nosso queijo típico (de cabra e/ou ovelha)

     Desde pequeno que me lembro dos meus pais terem algumas cabras (a princípio também algumas ovelhas), o mesmo sucedendo com praticamente todas as famílias da nossa aldeia. Cada um ia guardando o seu pequeno rebanho (quase sempre menos de 5 ou 6 cabeças), normalmente isolado do gado dos vizinhos.

     Os nossos pais tratavam dos campos e desse gado, com a ajuda dos filhos, aos fins de semana e noutros tempos livres da escola, pelo que iam pastorando mais em redor das suas propriedades. Mas juntavam-se os animais quando era preciso. Por exemplo, quando falecia alguém duma família...

     Por isso, foi fácil a certa altura (por volta de 1970) constituir um rebanho único da aldeia, com pastor próprio. Como consequência, aumentou o número de cabeças de gado na aldeia, com alguns a possuírem mais de 10. A par do gradual abandono de cultivo dos campos que se verificou e do aumento de mato, foi possível o gado pastorar até mais longe da aldeia...

     A situação manteve-se apenas por cerca duma década: creio que foi por começar a haver falta de pastores ou por eles quererem ganhar além do que era rentável pagar-se. Então, foi decidido continuar com o rebanho único, mas cada dia o guardava uma família, em sistema de rotatividade... Eu próprio cheguei a ir o dia inteiro pelos campos, quando estava de férias ou de fim de semana na aldeia. Só não era agradável quando estava mau tempo!

     Em qualquer dos casos, dado haver muita diversidade de pasto natural pelos campos (apenas escasseava na parte final dum ou outro verão), sempre os queijos caseiros feitos na nossa aldeia se mostraram muito saborosos e apreciados. Também era devido ao modo paciente e cheio de experiência de todo o processo de fabrico (uso de cardo para coagular/colhar o leite, o cincho/acincho de alumínio, o processo de cura e secagem, a conserva em talhas/potes de azeite, etc.).

     O queijo tanto podia ser só de cabra como de mistura (com leite de ovelha, se as houvesse). Enquanto os cabritos (e borregos) eram muito jovens, não se ordenhava as suas mães para fazer queijo. Mas, à medida que eles iam crescendo, iam sendo desmamados (desabituados de se alimentarem só de leite). Começava-se por lhes ir dando umas folhas de hortaliça, enquanto ainda ficavam sem acompanhar o rebanho. Depois, colocava-se-lhes na boca um barbilho (pedaço de pau trabalhado, seguro aos cornos, que possibilitava comer mas não agarrar/chupar nas tetas) ou um buço (pano a tapar a boca). Desse modo se ia começando a aproveitar o leite para fazer o queijo. Passados uns tempos, os cabritos eram vendidos, mortos, ou desabituavam-se do leite.

     Quando se fazia o queijo, ao ser apertada a coalhada/colhada no cincho, sobrava aquele soro (almece) tão apreciado por nós para comer com pedaços/sopas de pão! E se ainda contivesse algum "borreguinho" (pedaço de colhada), então ainda melhor. Comia-se fresco, com ou sem açúcar ou mel... Que saudades!!!

     Presentemente, quase não há gado na aldeia: creio que apenas 2 famílias ainda têm cabras. Tudo muda, mas os queijos que fazem continuam de qualidade...

     Sobre o assunto, muito mais haveria a dizer, talvez noutro artigo adiante... Se alguém se habilitar a escrever, faça favor. Prometendo colocar mais alguma foto, no futuro (sobre queijo, cincho, barbilho...), aqui deixo uma dum rebanho ainda existente (em 2004, tal como agora):


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Noutros tempos (3)

9 - O almofariz. As papas de linhaça e outras mezinhas caseiras:


     Quem não sabe o que é um almofariz? Antigamente, na aldeia havia um, que pertencia a todas as famílias (em regime comunitário, à semelhança do que acontecia com outros bens, nomeadamente o alambique, o búzio, a eira, o(s) forno(s), etc.)...

Almofariz...

     Utensílio feito de bronze (creio), era bastante pesado, sobretudo quando, ainda pequenos, lhe tentávamos pegar! Actualmente, há quem possua instrumentos parecidos (até de porcelana ou madeira), mas os mesmos servem mais para pisar ervas aromáticas e outros condimentos para a cozinha!

     Mas antigamente não era assim: o almofariz era quase um objecto sagrado e o seu uso denotava que havia alguma maleita por perto... Esse utensílio era imprescindível para moer ervas, sementes ou grãos que se usavam nas mezinhas caseiras... A utilização mais comum era para pisar/moer sementes de linhaça e, assim, obter as "papas de linhaça", que eram usadas para combater diversos males, principalmente os ligados à parte respiratória. Usava-se uma cataplasma sobre o peito...


Sementes de linhaça.

     Sabe-se, hoje, que são imensos os benefícios da linhaça: rejuvenescimento, vitalidade física, diminuição de peso, combate anemia,  acne e cancro (mama, próstata, cólon, pulmões, etc.), auxilia no equilíbrio hormonal (distúrbios associados à menstruação e menopausa), auxilia o sistema cardiovascular (diminuição do risco de arteriosclerose e redução do mau colesterol - LDL), auxilia no controlo da diabetes (glicemia), beneficia o sistema digestivo (e funcionamento dos intestinos), o sistema nervoso, o sistema imunológico (e doenças inflamatórias), combate a agressividade e a obesidade, produz benefícios na pele e no cabelo…

     Lembrei-me, então, de mais algumas mezinhas do tempo dos nossos pais e avós, a saber:

- Água de malvas para lavar/desinfectar feridas, etc.;
- Mistura de azeite e vinagre (para feridas, ulcerações e inflamações);
- Folha de couve untada com banha (no pescoço para curar a papeira);
- Fel para tirar farpas das mãos ou pés;
- Panos de água quente;
- Chás de: erva de S. Roberto, erva cidreira, barbas de milho, flor de tília, flor de carqueja, folha de oliveira, laranjeira, etc;
- "Pomada" caseira para os calos;
- Folhas de eucalipto (queimadas ou simplesmente ao ar);
- Bochechar aguardente para aliviar dores de dentes;
- Embebedar-se com aguardente para suportar mordeduras de escorpião;
- Passar água fria pela testa para estancar hemorragias do nariz;

(... se se lembrar de mais alguma, ajude-me...)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Noutros tempos... (2)

5 - As tulhas e o lagar:

     A azeitona, depois de apanhada e já limpa das folhas, era transportada para próximo dos lagares. Havia dois lagares: o de Cima, junto ao cruzamento da Bairrada/Pracana/Carvoeiro (M537), e o do Baixo, depois (abaixo) do Mesão Frio. Aí, cada família possuía uma tulha onde a azeitona era depositada, aguardando que chegasse a sua vez de ser moída. Neste espaço de tempo, que podia ser de várias semanas, aí era conservada, compactada.

     Cada tulha tinha uma largura que variava de cerca de metro e meio até 4 ou 5 metros. Era construída em pedra comum da zona (xisto) e, às vezes, revestida de cimento. No fundo, possuía um pequeno buraco por onde escorria alguma "albufeira", que se formava pelo facto da azeitona estar apertada...

Tulhas do Lagar de Cima (entre o Vale da Carreira e o Mesão Frio)
Créditos de Museu Nacional de Etnologia e Benjamim Pereira


Tulhas do Lagar de Baixo - Mesão Frio, algumas ao abandono
 (foto de Gracinda Tavares Dias)

     As sacas eram despejadas uma a uma e, com o auxílio dos pés e dum maço de madeira, era bem calcada. No final, colocavam-se por cima algumas pedras grandes (por vezes em cima de ceiras).

     Quando chegava a altura de ser moída, retiravam-se as pedras. Depois enchiam-se cestos e levava-se a azeitona para um local próximo do pio/galgas, onde era gradualmente despejada. Nalguns lagares isso era feito para uma área superior do lagar. Daí saía uma rampa própria, por onde escorria a azeitona, à medida que o lagareiro o desejava...


O pio com as galgas, à espera da próxima moagem... 
(foto do blogue de Gracinda Tavares Dias)

     No interior do lagar, o lagareiro e seu(s) ajudante(s) executam uma série de tarefas, das quais salientamos: moer (lançar a azeitona no pio, onde as galgas rodam e a calcam); enceirar (colocar a massa/pasta resultante dentro das ceiras); prensar (apertar/espremer hidraulicamente as ceiras empilhadas no vagão); vigiar o azeite que vai saindo da prensa para as talhas/tarefas (adicionando água quente da caldeira sobre as ceiras na prensa e ir purgando para retirar a albufeira, etc.).






     Depois de descido o vagão da prensa, há que desenceirar, isto é, retirar o bagaço das ceiras que foram apertadas. Esse bagaço servia para alimento dos porcos (ver abaixo, sobre a vianda)...

     Como últimas tarefas, temos a medição do azeite, verificar a sua acidez e, por fim, fazer a maquia (retirar algum azeite para ficar em posse do lagar, como pagamento do trabalho efectuado)...



   
   


6 - A vianda dos porcos:

     Creio que todos conhecerão a palavra vianda, que significa a comida para os porcos preparada com restos das refeições das pessoas, podendo ser adicionados outros ingredientes. Na nossa terra, os porcos eram alimentados com esses restos aos quais, muitas vezes, se adicionava farinha, para a mistura ficar mais forte...


     Além destes restos, os porcos eram também alimentados com abóboras, chilas, beterrabas, batatas (completas ou só as cascas), couves e outras hortaliças. E, enquanto havia, bagaço de azeitona. Este bagaço era trazido do lagar para junto de casa.  Era despejado numa tulha, onde era calcado para se conservar até ir servindo para adicionar nas viandas. 


     No final do verão, os figos das figueiras faziam as delícias dos animais... No princípio do inverno, eram ainda alimentados com landes e bolotas varejadas dos sobreiros e azinheiras, mas como estas árvores começaram a escassear, há muito isso caiu em desuso... 

7 - Vinho, vinagre, jeropiga e aguardente:

     Tanto quanto me parece (ou me lembro, de pequeno), antes da década de 1970, não era comum que em cada família da nossa aldeia se fizessem vinho, vinagre, aguardente ou jeropiga. Não havia essa "cultura do vinho", isto é, quase ninguém cultivava videiras em quantidade suficiente, nem o regime político existente (ditadura) o facilitava/incentivava. Pelo contrário, havia até uma perseguição à feitura caseira dessas bebidas...

     Mas, depois do 25 de abril, tudo mudou: começaram a plantar-se videiras em praticamente todas as hortas. Nalguma divisão da casa ou anexo, quase todos arranjavam uma pequena adega, onde ficava um ou mais pipos (normalmente eram de madeira). Construíram também locais próprios para pisar as uvas: lagares. À medida que era feita a pisa, o mosto era retirado para os pipos. E aí era feita a fermentação do resto do mosto com as cascas e grainhas (bagulho), durante cerca de 9 dias e, depois, fazia-se a aguardente, no alambique comunitário (ver artigo de out2010).

       Uns dias antes da apanha das uvas, o(s) pipo(s) era(m) posto(s) na rua, e a madeira era forçada a inchar, com água abundante, até estar bem vedado e poder receber o mosto.

      O mosto da pisa das uvas era posto a fermentar nos pipos, adicionando-se um pouco de aguardente. Durante cerca de 2 a 3 meses, aí ficava a fermentar até "desdobrar", isto é, o mosto deixava de ser adocicado e se transformava em vinho. Havia quem lhe juntasse um pouco de fruta (maçã, amoras..), na parte final, para dar aroma...

     Por vezes, acontecia que o mosto não desdobrava mas azedava: em vez de vinho, fazia vinagre. Era uma chatice (!), mas sempre se conseguia vender ou dar algum aos vizinhos, que quase sempre ficavam satisfeitos por não necessitarem de o comprar nas mercearias...

     Na nossa casa (e em muitas outras), à saída da pisa, era costume a mãe fazer jeropiga. Numa garrafa quase cheia de mosto era adicionada alguma aguardente (mais ou menos na proporção de 3 para 1) e, se o mosto não for muito doce, um pouco de açúcar... Pouco tempo depois (cerca de um mês), essa bebida podia ser consumida, principalmente para aquecer as gargantas, nas manhãs frias de outono...

8 - Uvas e marmelos dependurados pela casa:

     Era costume, nas nossas casas, conservar uvas durante mais uns meses, após a vindima, dependurando-as nos tectos das lojas ou salas (quanto mais fresca a divisão, melhor). Também se fazia o mesmo com os marmelos. (...)


9 - Arado, charrua e grade:

     Toda a gente sabe o que é um arado e para que serve. No entanto, nem todos (principalmente os mais novos) tiveram a possibilidade de observar os tipos de arado usados na nossa aldeia.

     Como os solos das nossas terras contêm geralmente uma pequena camada arável, os arados/charruas eram muito simples, quando comparados com outras zonas do país. Possuíam apenas um espigão ou bico (relha) e uma cauda (rabiça), que o lavrador segura pela mão. À frente, para ajudar a deslizar no solo, uma pequena roda. Os mais antigos eram totalmente de madeira, sem roda, claro. (Ainda me lembro deles). Depois surgiram os de metal/ferro. Nestes, a relha (parte afiada que rasga a terra) era aparafusada e substituída quando ficava muito desgastada ou se se partia, o que às vezes acontecia devido a alguma rocha ou até raiz de árvore mais firmes...

     Depois de lavradas as terras das hortas, para ajudar a apanhar restos de ervas ou para desfazer as irregularidades deixadas (cômaros), passava-se com uma grade por cima. A grade podia também ser de ferro ou madeira, tinha pequenos dentes e era usada tanto com os dentes virados para baixo ou para cima, consoante o estado do terreno que se queria "agradar" (gradar)...

     Para aumentar o peso do utensílio, usava-se às vezes pedras ou lajes por cima, principalmente se era de madeira, mais leve. Ou, então, o peso de quem andava a lavrar, guiando o animal com as rédeas viradas para trás, mais compridas...