quinta-feira, 22 de junho de 2017

Outro poema do António Alves

Tudo, incessantemente tudo, até as memórias
desenhadas, redesenhadas, percorrem a nudez
do chão raso de poeira, desnudado de rosas,
terra magra e enxuta dos que já partiram, dos
poucos que ainda estão, canto ritmado de cigarras
e grilos – sentado nos varais duma carroça vejo
tempos em que tudo fervilhava…

um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
Entre duas leiras abandonadas o que foi um muro,
um amontoado de silvas e tábuas velhas, o que
resta duma picota – um poço vazio, no fundo
partes dum fogão, um vime a querer sobreviver…
um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
uma roseira, mais velha que o tempo, que sobreviveu
às intempéries e ao abandono, jovem e bela
aos meus olhos, perfumada, filha da terra,
mãe de muitos amores – quantas casas e quantas mesas
terá encantado antes de ser um pouco minha,
antes de fazer parte, de ser, a rainha do meu jardim?…
um poço, um algeirós de pedra, uma roseira…
e eu aqui, a roseira e rosas – únicas, perenes no
meu encantamento, no amor à terra onde nasci,
e a ti…

António Alves
21/06/2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mais um poema do António Joaquim Alves sobre a aldeia

Olho a ribeira.

Continua a haver maio mas já não há milho
as noras estão sem alcatruzes
a água está parada
o açude mingou.

De olhos fechados vejo gente
escuto o tic-tac das noras
vozes.

Sonho!...

Um rebanho de cabras desce a encosta
os chocalhos
umas mais afoitas acercam-se da horta.

Uma pedra fende o ar
o Manuel Branco está sentado debaixo duma oliveira.

Ao lado o cão faz-se de morto
de olhos abertos.

António Alves
09/06/2017


Foto/ Arranjo - António Alves.
(...nada como uma boa mesa e boa companhia.)